JORGE DE LIMA (1895-1953)

Ó sabedoria que saístes dos lábios de Adonai,
Adonai - Condutor diante de quem reis e ditadores ficam mudos;
ó Adonai Clavis Davi, iluminai os que jazem sob a sombra da morte,
ó Adonai Emanuel, expectatio gentium, Senhor de Mira-Celi e meu Senhor,
iluminai os que vamos morrer.
Sob vossa luz represento-me Peixe que se transforma em cordeiro.
Ó Adonai,
sois o Triângulo que emergiu de dentro dos limos,
onde a minha face já se achava formada;
ó Adonai, ofereço-vos Mira-Celi.
Vede que a mesma Tiara, e o mesmo manto nos envolvem na mesma unidade;
ó Adonai, vede que somos o mesmo Livro e o mesmo Trevo,
o mesmo Triângulo em que oscilamos como dois pêndulos dentro da mesma ogiva.
Vivemos embutidos no centro de vossos olhos, ó Adonai;
e sobreposto ao Triângulo de que sois uma parte,
eu construí nosso Triângulo como um triângulo de pactos.
Ó Adonai,
abaixo de vossa Trindade e dos nomes divinos de vossa imensa hierarquia,
lembrai-vos dos nomes dos homens e dos seres padecentes da mais vasta comunhão;
entre o Oriente e o Meio-dia, ó Adonai,
entre o Meio-dia e o Ocidente,
entre o Ocidente e o Setentrião, ó Adonai,
ouço o vosso nome oposto ao do grande Lucífugo.
Adonai, o nosso diálogo prossegue através das idades;
se me interrogais amiúde, ponho-me a blasfemar;
mas, mesmo assim, nos conservais sem lesão.
Adonai,
paralela aos triângulos dos pactos corre a posteridade satânica;
mas o sopro de Mira-Celi refrigera-me a língua
ou acende a fagulha que me ateastes nos olhos;
tudo aqui é conexo, e o inferior é igual ao superior,
e o superior é trino, como o mais humilde dos seres.
Ó Adonai, que não conheceis acidentes de tempo,
e correi sobreposto aos signos da eternidade,
não deixes que as negras asas nos eclipsem
nem as conjunções malignas nos bipartam.
Ó Adonai, as pinças do Escorpião rompem-se às plantas da Virgem:
tudo está infuso, ó Adonai, neste sempiterno Triângulo
de que fomos tirados aos pares e lançados na imensidão;
Quantos olhos se embutiram em minhas órbitas?
Quantas chamas de língua voaram entre os meus dentes a percorrer o mundo?
Eu próprio as ouço descrevendo uma elipse
entre as estrelas de absinto que inda não caíram.
A origem destas figuras celestes vem da visão que me destes,
vem dos raios que de vossa Glória a descer sobre nós,
nos transformam em sagitários.
A nossa solidão é aparente diante de vossas coortes,
pois nos visitam os seres da terra e os que passam por nós
para tombar ou subir.
Há quantos milênios bate no meu barro o vosso diapasão de luz?
Adonai, vejo presenças nas ventanias,
são vossas mãos por acaso ou vossa túnica multiplicada,
ou apenas Mira-Celi, a de fogo e música, a reclusa e onipresente?

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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