FLAUBERT (1821-1880)

Livre da ama, Emma retomou o braço do sr. Léon. Caminhou rapidamente por algum tempo; depois, diminuiu o passo, e o olhar que lançava diante de si encontrou o ombro do rapaz, cuja sobrecasaca tinha uma gola de veludo preto. Seus cabelos castanhos caíam por cima, lisos e bem penteados. Reparou nas unhas dele, mais longas do que se usavam em Yonville. Cuidar delas era uma grandes ocupações do escrivão; e mantinha, para esse uso, um canivete bem particular em sua escrivaninha.

Voltaram a Yonville seguindo a beira da água. Na estação quente, a margem mais alargada deixava ver até às bases os muros dos quintais, que tinham uma escada de alguns degraus descendo para o rio. Este corria sem ruído, rápido e frio ao olhar; grandes matos afilados curvavam-se juntos sobre ele, segundo a corrente que os empurrava, e como cabeleiras verdes abandonadas espalhavam-se na limpidez. Às vezes, na ponta dos juncos ou sobre a folha dos nenúfares, um inseto de patas finas caminhava ou pousava. O sol atravessava os pequenos glóbulos azuis das ondas que se sucediam ao estourarem; os velhos salgueiros desgalhados miravam na água a sua casca cinzenta; além, ao redor, a campina parecia vazia. Era a hora do jantar nas fazendas, e a jovem senhora e seu companheiro só ouviam, ao andar, a cadência de seus passos na terra do caminho, as palavras que trocavam e o farfalhar do vestido de Emma que fazia ruído em torno dela.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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