CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A SENHORA BISTURI

AO CHEGAR AO FIM do arrabalde, sob os clarões do gás, senti um braço a deslizar suave sob o meu, e ouvi uma voz que me dizia ao ouvido:

- O senhor é médico?

Olhei: era uma jovem alta, robusta, de olhos arregalados, levemente pintada, cabelos flutuando ao vento com as fitas do gorro.

- Não; não sou médico. Deixe-me ir embora.

- Oh! sim, o senhor é médico. Está-se vendo. Venha a minha casa. O senhor ficará satisfeito comigo. Venha!

- Irei vê-la, sem dúvida, porém mais tarde, depois do médico, e rindo as gargalhadas. - O senhor é um médico farsante; tenho conhecido muitos dessa espécie. Venha.

Eu amo apaixonadamente o mistério, pois sempre tenho a esperança de o desvendar. Assim, deixei-me arrastar por aquela companheira, ou antepor aquele enigma inesperado.

Omito a descrição do casebre; pode-se encontrar em diversos poetas franceses antigos bem conhecidos. Apenas - pormenor que escapou a Régnier -, pendiam das paredes dois ou três retratos de doutores célebres.

Como fui bem tratado! Grande lareira, vinho quente, charutos; e, oferencendo-me estas boas coisas e acendendo ela mesma um charuto, a divertida criatura me dizia:

- Faça de conta que está em sua casa, meu amigo, ficará à vontade. Isto lhe de recordar o hospital e o bom tempo de moço. Ora, diga-me lá onde ganhou esses cabelos brancos? O senhor não era assim até há pouco tempo, quando interno de L. Lembro-me bem: era o senhor quem o assistia nas operações graves. Como aquele homem gosta de cortar, talhar e aparar! Era o senhor quem lhe dava os instrumentos, os fios e as esponjas. E como, feita a operação, ele dizia com soberba, consultando o relógio: - "Cinco minutos, senhores!" Ah! eu ando por toda parte. Eu conheço bem toda essa gente.

Alguns instantes depois, ela, tuteando-me, repetia-me a sua cantilena e me perguntava:

- Tu és médico, não é, meu gatinho?

Esse ininteligível estribilho fez que eu levantasse de um salto.

- Não! - gritei furioso.

- Cirurgião?

- Não! não! a menos que seja para te cortar a cabeça, sua grandessíssima filha de uma vaca!

- Espera - continuou ela -, tu vais ver.

E tirou dum armário um maço de papéis, que não era outra coisa senão a coleção dos retratos dos médicos ilustres daquele tempo, litografados por Maurin, que durante muitos anos estiveram expostos no Cais Voltaire.

- Olha! reconheces este?

- Reconheço; é X. Aliás, o nome está embaixo; mas eu o conheço pessoalmente.

- Eu bem sabia! Olha! este aqui é Z., aquele que dizia em seu curso, falando de X.: - "Esse monstro que traz impressa no rosto a negrura da alma!" Tudo isso porque o outro não tinha a mesma opinião que ele em certo assunto! Como a gente ria disso na Escola, naquele tempo! Lembras-te? Olha, este agora é K., o que denunciava ao governo os rebeldes a quem tratava em seu hospital. Era o tempo das rebeliões. Como é possível que um homem tão bonito tenha um mau coração? - Eis aqui agora W., famoso médico inglês; eu o peguei na sua viagem a Paris. Tem um ar de moça, não é?

E, como eu tocasse num embrulho atado com barbante, colocado sobre a mesa de centro:

- Espera um pouco - disse ela. - Isso aí são os internos, e este pacote, os externos.

E desdobrou em leque uma multidão de imagens fotográficas, que representavam fisionomias muito mais jovens.

- Quando nos tornamos a ver, tu me darás o teu retrato, não é, querido?

- Mas - perguntei-lhe, seguindo também, por minha vez, a minha idéia fixa - por que pensas que eu sou médico?

- É que tu és tão gentil e tão bom para as mulheres!

- "Singular raciocínio!" - disse de mim para mim.

- Oh! é difícil eu enganar-me com eles; já conheci um bom número. Gosto tanto desses cavalheiros que, embora não esteja doente, de vez em quando vou vê-los, somente para vê-los. Há alguns que me dizem com frieza: "A senhora não tem doença de espécie alguma!" Mas há outros que me compreendem, porque eu lhes faço trejeitos.

- E quando eles não te compreendem?

- Ora essa! como os interrompi ultimamente, deixo dez francos sobre a lareira. São tão bons, tão amáveis, estes homens! Descobri na Casa de Misericórdia um pequeno interno, lindo como um anjo, e tão delicado! E como trabalha, o pobre do rapazinho! Disseram-me os seus camaradas que ele não tem nenhum dinheiro, porque seus pais são pobres e nada lhe podem mandar. Isto me deu confiança. Afinal de contas, eu não sou nada feia, embora não seja muito moça. Disse ao rapaz: - "Vai a minha casa, vai lá sempre. E comigo não te incomodes: não preciso de dinheiro." Mas compreendes que eu lhe fiz entender isso por várias maneiras; não lhe falei assim cruamente: tinha receio de humilhá-lo, ao querido pequeno! Pois bem: acreditarás que eu tenho um desejo esquisito que não ouso confessar-lhe? Eu desejaria que ele viesse visitar-me com a sua bolsa e o seu avental, mesmo um pouco manchado de sangue!

Disse-o com ar muito cândido, como um homem sensível diria a uma comediante a quem amasse: - "Quero vê-la vestida com o traje que usava naquele famoso papel que você criou."

Na minha obstinação, perguntei-lhe:

- Podes-te lembrar da época e da circunstância em que te nasceu essa paixão tão particular?

Foi difícil fazer-me compreender; por fim o consegui. Mas então ela me respondeu com ar muito triste, e até, tanto quanto me é possível recordar-me, afastando os olhos:

- Não sei... não me lembro.

Que de coisas estranhas não encontra a gente numa grande cidade, quando sabe andar por ela e ver! A vida pulula de monstros inocentes. - Senhor, meu Deus! vós, o Criador, vós, o Mestre; vós, que fizestes a Lei e a Liberdade; vós, o soberano, que dais o livre-arbítrio, vós, o juiz, que perdoais; vós, que sois cheio de motivo e de causas, e que talvez lançastes em meu espírito o gosto do horror para converter o meu coração, como a cura na extremidade de uma lâmina; Senhor, tende piedade, tende piedade dos loucos e das loucas! Ó Criador! podem existir monstros aos olhos do Único que sabe por que eles existem, como foram feitos e como poderiam não ter sido feitos?

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