BOCCACCIO (1313-1375)

— Nobres mulheres: a novela precedente me induz a narrar, semelhantemente, o caso de um ciumento; pois considero que é bem feito o que as esposas dos ciumentos lhes fazem; principalmente quando elas se enciúmam sem razão. Se os que fazem as leis tomassem em consideração todas as coisas, penso que, quanto a isto, eles não cominariam, às mulheres, pena diversa daquela que cominam à pessoa que ofende outra defendendo-se a si mesma; os ciumentos são as insidias da vida das mulheres jovens; são os diligentíssimos provocadores da morte delas. As esposas ficam, a semana inteira, fechadas em casa; tratam de todos os afazeres familiares e domésticos; desejam, depois, como todas desejam, ter, no dia de folga, algum consolo e alguma paz. Querem, igualmente, alguma recreação, como a têm os trabalhadores do campo, os artesãos da cidade e os regedores dos tribunais.

Foi assim que Deus fez, porquanto Ele, no sétima dia de todos os Seus trabalhos, repousou. É assim, também, que mandam as leis santas e civis, as quais, levando em consideração a honra de Deus e o bem comum, fazem distinção entre os dias de trabalho e a aqueles de descanso.
Neste repouso e nestas compensações, os ciumentos não consentem; até, ao contrário, tornam, às respectivas esposas, ainda mais soturnos os dias que às outras mulheres são os mais agradáveis; nesses dias, conservam-nas ainda mais fechadas, mais rigorosamente observadas, fazendo-as infelizes e lamurientas; somente as mulheres que já provaram essa circunstância é que sabem o quanto isso concorre para destruir a vida das pobres perseguidas. Concluindo: o que uma esposa faz, mesmo sem razão, a um marido ciumento, não deveria ser condenado, e sim louvado.

BOCCACCIO, 2002, p.513

O DECAMERÃO
Sétima Jornada: Dionéio
Quinta Novela: Fiammetta

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