STENDHAL (1783-1842)

O céu por fim teve pena desta mãe infeliz. Aos poucos, Stanislas deixou de correr perigo. Mas o gelo se quebrara, a razão descobrira a extensão do pecado, ela não conseguiu mais recobrar o equilíbrio. Ficaram os remorsos, e foram o que tinham de ser naquele coração sincero. Sua vida foi o céu e o inferno: o inferno quando ela não via Julien, o céu quando estava a seus pés. "Não alimento nenhuma ilusão", dizia-lhe, mesmo nos momentos em que tinha coragem de se entregar a todo o seu amor. "Estou condenada, irremissivelmente condenada. Você é jovem, cedeu à minha sedução, o céu pode perdoá-lo; mas eu, eu estou condenada. Sei disso por um sinal certeiro. Tenho medo: quem não teria medo diante da visão do inferno? Mas no fundo não me arrependo. Cometeria novamente o erro se tivesse de cometê-lo. Que o céu apenas não me puna já neste mundo e nos meus filhos, e terei mais do que mereço. Mas pelo menos você, meu Julien", exclamava em outros momentos, "está feliz? Acha que o amo?"

A desconfiança e o orgulho sofredor de Julien, que precisava sobretudo de um amor de sacrifícios, não resistiram à visão de um sacrifício tão grande, tão indubitável e renovado a cada instante. Adorava a sra. de Rênal. "Apesar de ela ser nobre e eu, filho de um operário, ela me ama... Não sou a seu lado um criado de quarto encarregado das funções de amante." Afastado esse temor, Julien entregou-se a todas as loucuras do amor, nas suas incertezas mortais.

O VERMELHO E O NEGRO

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