FLAUBERT (1821-1880)

A necessidade de cuidar dos outros não era a única coisa que levava o farmacêutico a tanta cordialidade obsequiosa, e havia por trás disso um plano.

Ele tinha infringido a lei do ventoso, ano XI, artigo Iº,³º que proíbe a qualquer indivíduo não portador de diploma o exercício da medicina; tanto que, com base em denúncias tenebrosas, Homais havia sido intimado em Rouen, junto ao senhor procurador do rei, em seu gabinete particular. O magistrado o recebera em pé, vestido com a toga, arminho ao ombro e barrete na cabeça. Era de manhã, antes da audiência. Ouvia-se no corredor passarem as fortes botas dos soldados, e como um barulho distante de pesadas fechaduras que se trancavam. Os ouvidos do farmacêutico lhe tiniam ao crer que ia cair num ataque de apoplexia; entreviu masmorras, a família em prantos, a farmácia vendida, todos os grandes frascos disseminados; e foi obrigado a entrar num café para tomar um copo de rum com água de Seltz, para recuperar os espíritos.

Pouco a pouco, a lembrança dessa advertência foi se enfraquecendo, e ele continuava como outrora, a dar consultas anódinas nos fundos da farmácia. Mas o prefeito não gostava dele, confrades estavam enciumados, era necessário precaver-se de tudo; ligando-se ao sr. Bovary mediante gentilezas, era ganhar a sua gratidão e impedir que ele falasse mais tarde, se percebesse alguma coisa. Assim, todas as manhãs, Homais levava-lhe o jornal e, muitas vezes, no curso da tarde, deixava por um instante a farmácia para ir até o agente de saúde para conversar.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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