FLAUBERT (1821-1880)

Emma sentiu primeiro um grande espanto, depois teve vontade de se entregar, para saber que coisa era ser mãe. Mas, não podendo gastar o que queria, ter um berço em forma de barquinho com cortinas de seda cor-de-rosa e toucas bordadas, renunciou ao enxoval num acesso de amargura, e encomendou tudo de uma só vez a uma operária da aldeia, sem escolher nada nem discutir. Ela não se divertiu, pois, com esses preparativos em que a ternura das mães se põe em apetite, e sua afeição, desde a origem, foi talvez atenuada em alguma coisa.

Entretanto, como Charles, em todas a refeições, falava do bebê, logo se pôs a pensar nisso de modo mais contínuo.

Ela desejava um filho. Ele seria forte e moreno, ela o chamaria de Georges; e essa ideia de ter como filho um macho era como a revanche esperada de todas as suas impotências passadas. Um homem, pelo menos, é livre; pode percorrer as paixões e os lugares, atravessar os obstáculos, consumir as felicidades mais distantes. Mas uma mulher é impedida continuamente. Inerte e flexível a uma só vez, tem contra si as molezas da carne com as dependências da lei. Sua vontade, como o véu de seu chapéu preso por um cordão, palpita a todos os ventos; há sempre algum desejo que carrega, alguma conveniência que detém.

Ela deu à luz num domingo, por volta das seis horas, ao nascer do sol.

- É uma menina! - disse Charles.

Ela virou a cabeça e desfaleceu.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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