CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

RETRATOS DE AMANTES

NUMA SALA DE ESTAR de homens, isto é, num salão de fumar contíguo a uma elegante tavolagem, quatro homens fumavam e bebiam. Não eram, a rigor, nem moços nem velhos, nem bonitos nem feios; mas, velhos ou moços, mostravam essa distinção facilmente reconhecível dos veteranos da alegria, esse indescritível não-sei-quê, essa tristeza fria e zombeteira que diz bem claro: - "Vivemos intensamente e procuramos tudo o que pudéssemos amar e estimar."

Um deles encaminhou a conversa para o assunto mulheres. Teria sido mais filosófico silenciar de todo a esse respeito; mas há pessoas de espírito que, depois de beber, não desdenham as conversações frívolas. Então a gente as escuta como escutaria música de dança.

- Todos os homens - dizia ele - tiveram a idade de Querubim; é o tempo em que, à falta de driades, se abraça, sem repugnância, o tronco dos carvalhos. É o primeiro grau do amor. No segundo grau, começa-se a escolher. Pode deliberar - já é uma decadência. É então que se busca decididamente a beleza. Quanto a mim, senhores, envaideço-me de haver chegado, já faz muito tempo, à fase climatérica do terceiro grau, quando a beleza em si mesma não basta, mas tem de ser sazonada pelo perfume, pelos adornos, etc. Devo até confessar que aspiro, algumas vezes, como a uma felicidade desconhecida, a certo quarto grau que deve representar a calma absoluta. Mas, durante a vida inteira, salvo na idade de Querubim, fui mais sensível que ninguém à irritante tolice, a exacerbadora mediocridade das mulheres. O que amo acima de tudo nos animais é a sua candura. Imaginem, pois, o que tive de sofrer com a última de minhas amantes.

"Era a bastarda de um príncipe. Bela, está claro; se não, por que a teria eu procurado? Porém deitava a perder essa grande qualidade com uma ambição malsã e disforme. Era mulher que sempre queria fazer-se de homem. - 'Você não é homem! Ah! se eu fosse homem! De nós dois, eu é que sou o homem!' Tais eram os insuportáveis estribilhos que saíam de um livro, de um poema, de uma ópera pela qual eu deixava transparecer a minha admiração, logo dizia ela: - 'Então você pensa que isso é muito forte? Será que você conhece bem a sua força?' E punha-se a discutir.

"Um belo dia, atirou-se à química; e entre a minha boca e a sua encontrei desde então uma máscara de vidro. E, ainda por cima, muito virtuosa. Se alguma vez eu a desnorteava com um gesto mais vivamente amoroso, ela se contorcia como uma sensitiva violada..."

- Como foi que isso acabou? - perguntou um dos outros três: - Eu não o imaginava tão paciente.

- Deus - continuou ele - deu o remédio ao mal. Um dia surpreendi essa Minerva, esfomeada de força ideal, em colóquio com o meu criado, e em tal situação que me obrigou a retirar-me, discreto, para não fazê-los corar. À noite, despedi-os a ambos, pagando-lhes os salários.

- Por minha parte - declarou o que havia interrompido - não tenho razão de queixa, a não ser de mim mesmo. A felicidade veio morar comigo, e eu não a reconheci. Nestes últimos tempos, o destino me doara uma mulher que era a mais doce, a mais submissa e a mais devotada de todas as criaturas, e sempre disposta! e sem entusiasmo! - "Uma vez que lhe agrada, estou de acordo!" Era a sua resposta habitual. Se vocês dessem bordoadas nesta parede ou neste campo, arrancariam deles mais suspiros do que poderiam arrancar do seio da minha amante os transportes do mais arrebatado amor. Após um ano de vida em comum, ela confessou-me que jamais conhecera o prazer. Aborreceu-me esse duelo desigual, e a incomparável criatura se casou. Passado muito tempo, veio-me à ideia tornar a vê-la, e ela me disse, mostrando-me seios belos filhos: - "Saiba você, meu caro amigo, que a esposa ainda é tão virgem quanto o era a sua amante." Nada mudara aquela mulher. Às vezes, lembro-me dela com saudade, deveria ser casado com ela.

Os outros puseram-se a rir, e um terceiro disse, por sua vez: - Meus caros amigos, eu conheci prazeres de que vocês talvez tenham desenhado. Refiro-me ao lado cômico do amor, um cômico de que não está excluída a admiração. Creio que admirei mais a última das minhas amantes do que vocês poderão ter odiado ou amado as suas. E todos a admiravam tanto como eu. Se entrávamos num restaurante, dentro de alguns minutos cada um se esquecia de comer, para contemplá-la. Os próprios quecerem os seus deveres. Em suma, vivi algum tempo em intimidade com um fenômeno vivo. Ela comia, mastigava, triturava, absorvia, devorava, mas com o ar mais doce e mais despreocupado deste mundo. Assim, manteve-me em êxtase por muito tempo. Tinha um modo suave, distraído, inglês e romanesco de dizer: "Estou com fome!" E repetia estas palavras dia e noite, mostrando os mais lindos dentes do mundo, que deixariam vocês ao mesmo tempo enternecidos e alegres. Eu poderia ter feito a minha independência exibindo-a nas feiras como monstro polígafo. Alimentava-o bem; e no entanto ela me deixou... Por um fornecedor de viveres, decerto hão de pensar vocês. Algo parecido; uma espécie de empregado de Intendência que, graças a algum artifício ilícito que somente ele conhecia, forneceu talvez à pobre menina a ração de vários soldados. Pelo menos foi o que imaginei.

- Por mim - declarou o quarto -, aguentei sofrimentos atrozes pelo contrário daquilo que em geral é objeto de censura no egoísta belo sexo. Parece-me sem propósito, ó felicíssimos mortais, vocês se queixarem das imperfeições das suas amantes!

Isto foi dito num tom muito sério, por um homem de aspecto sereno e grave, fisionomia quase clerical, infelizmente alumiada por olhos de um cinza claro, desses olhos cujo olhar diz: - "Eu quero!" - ou: - "É preciso!" - ou ainda: "Eu não perdoo nunca!"

- Se, nervoso como eu sei que você é, G., fracos e levianos como são vocês dois, K. e J., se houvessem ligado a certa mulher das minhas relações, ou teriam fugido dela, ou teriam morrido. Eu sobrevivi, como estão vendo. Imaginem uma pessoa incapaz de cometer um erro de sentimento ou de cálculo; imaginem uma lastimável serenidade de caráter; um devotamento sem comédia e sem ênfase; uma doçura sem fraqueza; uma energia sem violência. A história do meu amor assemelha-se a interminável viagem sobre uma superfície pura e polida como um espelho, vertiginosamente monótona, que refletisse todos os meus sentimentos e os meus gestos com a exatidão irônica da minha própria consciência, de sorte que eu não me podia permitir um gesto ou um sentimento extravagante sem perceber de pronto a censura muda do meu inseparável espectro. O amor me parecia uma tutela. Quantas tolices ela me impediu de praticar, e que eu lamento não haver cometido! Quantas divididas pagas a contragosto! Ela me privava de todos os benefícios que eu poderia fruir da minha loucura pessoal. Com uma fria e intransponível norma frustrava-me todos os caprichos. Para cúmulo de horror, passado o perigo não exigia recompensa. Quantas vezes tive de me conter para não lhe saltar à garganta, gritando-lhe: - "Sê imperfeita, miserável! a fim de que eu possa amar-te sem mal-estar e sem cólera!" Durante anos e anos a admirei, com o coração cheio de ódio. Afinal de contas, não fui eu que morri!

- Ah! - exclamaram os outros - então ela morreu?

- Sim! aquilo não podia continuar. O amor se tornara para mim um pesadelo opressivo. Vencer ou morrer, como diz a Política, eis a alternativa que o destino me impunha! Uma tarde, num bosque... à beira de um pântano... depois de melancólico passeio durante o qual os olhos dela refletiam a doçura do céu e o meu coração estava crispado como o Inferno...

- O quê!

- Como!

- Que quer você dizer?

- Era inevitável. O meu vivo sentimento de equidade não me permitiria espancar, ultrajar ou despedir, um criado irrepreensível. Mas fazia-se necessário conciliar esse sentimento com o horror que este ser me inspirava; desembaraçar-me daquela criatura sem a desrespeitar. Ou esperavam vocês que eu fizesse dela, se ela era perfeita!

Os três outros companheiros olharam para este com um olhar vago e meio estupidificado, como fingindo não compreender e como a confessar implicitamente que eles, por sua vez, não se sentiam capazes de uma ação tão rigorosa, embora suficientemente explicada.

Depois mandaram vir novas garrafas, para matar o Tempo, que tem a vida tão dura, e acelerar a Vida, que anda tão devagar.

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