CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)


JÁ CEM VEZES o sol irrompera, radioso ou entristecido, dessa cuba imensa do mar, cujas bordas mal se deixam perceber; cem vezes voltava ele a mergulhar, resplandecente ou melancólico, em seu imenso banho da noite. Desde muitos dias antes, podíamos contemplar o outro lado do firmamento e decifrar o alfabeto celeste dos antípodas. E cada um dos passageiros suspirava e resmungava. Dir-se-ai que à aproximação da terra se lhes exasperava o sofrimento.

- Quando, afinal - diziam eles -, deixaremos de dormir um sono agitado pelas vagas, perturbado por um vento que ronca mais alto do que nós? Quando poderemos comer uma carne que não seja tão salgada como o elemento infame que nos leva? Quando poderemos digerir numa poltrona imóvel?

Alguns havia que pensavam no lar, que tinham saudades da esposa infiel e enfadonha, e da prole choramingas. Achavam-se todos de tal modo enlouquecidos pela imagem da terra ausente que, acredito, comeriam relva com mais entusiasmo do que os animais.

Enfim, houve sinal de praia; e, aproximando-nos, vimos que era uma terra magnífica, deslumbrante. Dir-se-ia que as músicas da vida se desprendiam dela num vago murmúrio, e que daquelas costas, ricas em verduras de toda casta, se exalava, até várias léguas além, um delicioso odor de flores e de frutos.

Em breve cada um se tornou alegre, cada um se desfez do seu mau humor. Foram esquecidas todas as disputas, todas as faltas reciprocamente perdoadas, os duelos marcados foram abolidos da memória, e os rancores se evolaram como fumaça.

Só eu estava triste, inconcebivelmente triste. Como um sacerdote a quem houvessem arrebatado a divindade, não podia, sem dilacerante amargura, afastar-se daquele mar tão monstruosamente sedutor, daquele mar tão infinitamente vário em sua espantosa simplicidade, e que parece conter em si e representar, com seus jogos, seus aspectos, suas cóleras e seus sorrisos, os humores, as agonias e os êxtases de todas as almas que viveram, que vivem e que viverão!

Dizendo adeus a essa incomparável beleza, eu sentia um abatimento mortal; e, quando cada um dos meus companheiros exclamou - "Enfim!" -, eu só pude gritar: - "Já!"

Entretanto era a terra, a terra com os seus ruídos, as suas paixões, as suas comodidades, as suas festas; era uma terra opulenta e magnífica, cheia de promessas, que nos enviava um misterioso perfume de rosa e de almiscar, e donde as músicas da vida nos chegavam num amoroso murmúrio.

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