CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O TIRSO

QUE É UM TIRSO? No sentido moral e poético, é um emblema que trazem na mão os sacerdotes ou sacerdotisas quando celebram a divindade de que são os intérpretes e os servidores. Fisicamente, porém, não é mais do que um bastão, um simples bastão, vara de lúpulo, tutor de vinha, duro, seco e reto. Em torno desse bastão, em meandros caprichosos, brincam e doidejam hastes e flores: estas, sinuosas e fugidias; aquelas, pendidas como sinos ou taças emborcadas. E uma glória surpreendente jorra dessa complexidade e a espiral fazem a corte à linha reta e dançam-lhe em derredor numa silenciosa adoração? Não vos parece que todas aquelas corolas delicadas, todos aqueles cálices, explosões de perfumes e de cores, executam um mistico fandango à volta do bastão hierático? E qual é, no entanto, o mortal imprudente que ousará decidir se as flores e os pâmpanos foram feitos para o bastão, ou se o bastão é mero pretexto para exibir a beleza dos pâmpanos e das flores?

O tirso é a representação da vossa espantosa dualidade, maestro poderoso e venerado, caro Bacante da Beleza apaixonada e misteriosa. Jamais ninfa exasperada pelo invencível Baco vibrou o seu tirso sobre a cabeça das enlouquecidas companheiras com tanta energia e capricho como vós moveis o vosso gênio sobre o coração de vossos irmãos. O bastão simboliza a vossa vontade, reta, firme e inabalável; as flores, o passeio da vossa fantasia em torno da vossa vontade; é o elemento feminino a executar ao redor do macho as suas prestigiosas piruetas. Linha reta e linha tortuosa, intenção e expressão, rigidez da vontade, sinuosidade do verbo, unidade do fim, variedade dos meios, amálgama todo-poderoso e indivisível do gênio, qual o analista que terá a detestável coragem de vos dividir e vos separar?

Caro Lizt: através das brumas, para além dos rios, por sobre as cidade onde os pianos cantam a vossa glória, onde a imprensa interpreta a vossa sabedoria, onde quer que estejais, nos esplendores da Cidade Eterna ou nas brumas dos países sonhadores que Grambrino consola, improvisando cantos de deleite ou de inefável dor, ou confinando ao papel as vossas meditações abstrusas, cantor da Volúpia e da Angústia eternas, filósofo, poeta e artista, eu vos saudo na imortalidade!

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