CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

AS VOCAÇÕES

NUM BELO JARDIM donde os raios de um sol de outono pareciam ter pena de partir, sob um céu já esverdinhado onde flutuavam nuvens de ouro como continentes em viagem, quatro belas crianças, quatro rapazinhos, certamente cansados de brincar, conversavam.

Dizia um deles:

- Ontem levaram-me ao teatro. Em palácios grandes e tristes, ao fundo dos quais se avista o mar e o céu, homens e mulheres, sérios e também tristes, porém muito mais belos e muito mais bem vestidos que esses que vemos por toda parte, falam com uma voz cantante. Ameaçam-me, imploram, afligem-se, e de vez em quando apoiam a mão num punhal preso à cinta. Ah! é muito bonito. As mulheres são muito mais belas e muito maiores do que as que nos vêm ver em nossas casas, e, embora os grandes olhos profundos e as faces afogueadas lhes deem um ar terrível, é impossível deixar de amá-las. A gente tem medo, tem vontade de chorar, e no entanto sente-se contente... Depois, o que é mais estranho, aquilo nos dá vontade de estar vestidos do mesmo modo, de dizer e fazer as mesmas coisas, e de falar com a mesma voz...

Um dos quatro meninos, que desde alguns segundos antes já não escutava as palavras do companheiro e observava com extraordinária fixidez não sei que ponto do céu, disse de repente:

- Olhem! olhem ali...! Estão vendo-o? Ele está sentado naquela nuvenzinha isolada, naquela nuvenzinha cor de fogo, que vai caminhando devagar. Ele, também, parece estar olhando para nós.

- Mas quem? - perguntaram os outros.

- Deus! - respondeu o garoto em um tom de absoluta convicção. - Ah! já vai muito longe; agora vocês não poderão vê-lo mais. Naturalmente ele viaja, para visitar todos os países. Olhem, ele vai pastar por detrás daquela fileira de árvores que se avista quase no horizonte... e agora está descendo atrás do campanário... Ah! já não se vê!

E por longo tempo o menino permaneceu voltado na mesma direção, fixando na linha que separa a Terra do Céu uns olhos em que brilhava uma inexprimível expressão de êxtase e de pesar.

- Isso é um tolo, lá com o seu Deus, que só ele pode perceber! - disse então o terceiro, cuja minúscula figura era assinalada por uma vivacidade e vitalidade singulares. - Pois eu vou-lhes contar como mar uma vivacidade uma coisa que nunca se deu com vocês, e que é um pouco mais interessante do que esse teatro e essas nuvens. Há poucos dias, meus pais me levaram consigo a viajar, e, como na estalagem onde pousamos não havia camas suficientes para todos nós, ficou resolvido que eu dormiria junto com a minha governanta.

Chamou os camaradas para mais perto de si, e falou em voz baixa:

- Dá uma sensação esquisita - sabem? - a gente não estar deitado sozinho e ver-se numa cama com a governanta, no escuro. Como não tinha sono, comecei, por distração, enquanto ela dormia, a passar a mão nos braços dela, no pescoço e nos ombro. Ela tem os braços e o pescoço muito mais cheios do que todas as outras mulheres, e uma pele tão macia, tão macia, que até parece papel de carta ou papel de seda. Era tão agradável aquilo que eu teria continuado por muito tempo se não sentisse medo - medo de acordá-la, e, além disso, medo de não sei quê. Depois enterrei a cabeça nos cabelos dela, que lhe caíam pelas costas, espessos como uma juba, e eles cheiravam tanto, podem crer, como cheiram, nesta horas, as flores do jardim. Quando vocês tiverem ocasião, experimentem fazer o que eu fiz, e vão ver!

Contando o seu caso, o jovem autor dessa prodigiosa revelação tinha os olhos arregalados por uma espécie de assombro daquilo que ainda estava sentindo; e os raios do poente, deslizando através dos ruivos anéis de sua desgrenhada cabeleira, acendiam-lhes uma como auréola sulfúrea de paixão. Era fácil adivinhar que aquele não passaria a vida a procurar a Divindade das nuvens, e a encontraria com frequência noutros lugares.

Por fim, o quarto falou:

- Vocês sabem que eu não me divirto em casa; não me levam nunca ao teatro; meu tutor é muito avarento. Deus não se ocupa comigo e com o meu tédio, e eu não tenho uma governanta bonita para me acariciar. Já por diversas vezes tenho pensado que o meu prazer seria andar sempre, sempre, direto, sem saber para onde, sem que ninguém se preocupasse com isso, e ver sempre para onde, sem que ninguém se preocupasse com isso, e ver sempre países novos. Nunca me sinto bem em parte alguma, e acredito sempre que estaria melhor em outra parte que não aquela onde estou. Pois bem, eu vi, na última feira da cidade vizinha, três homens que vivem como eu gostaria de viver. Vocês ainda não prestaram atenção a essa espécie de gente. Eles eram altos, quase negros, e, embora em trapos, mostravam-se muito soberbos, com ar de quem não precisa de ninguém. Tocavam, e seus grandes olhos sombrios se tornaram muito brilhantes durante a música; música tão surpreendente que dá vontade ora de dançar, ora de chorar, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo; a gente ficaria como louca se demorasse muito a escutá-los. Um deles, arrastando o arco sobre o violino, parecia contar uma queixa, e outro, fazendo saltitar seu martelinho pelas cordas de um pequeno teclado suspenso ao pescoço por uma correia, dava a impressão de rir da mágoa do vizinho, ao passo que o terceiro atritava de quando em quando os seus címbalos com violência extraordinária. Estavam tão contentes de si mesmos que continuaram a tocar sua música de selvagens, mesmo depois que a multidão se dispersou. Afinal, apanharam seus soldos, puseram a bagagem às costas, e partiram. Desejando saber onde moravam, segui-os de longe, até à entrada da floresta, onde compreendi - só então - que eles não moravam em parte alguma. Ouvi um deles dizer: - "É preciso armar a tenda?" - "Não! não! - respondeu o outro. - Com uma noite tão bonita!" O terceiro dizia, contando o apurado: - "Aquela gente não sente a música, e as mulheres dançam como ursos. Felizmente, antes de um mês estaremos na Áustria, onde encontraremos um povo mais estimável." - "Talvez fosse melhor irmos para a Espanha: o outono vem chegando; fujamos antes das chuvas e não molhemos senão a garganta" - sugeriu um dos outros dois. Guardei tudo, como vocês estão vendo. Depois eles beberam cada um uma xícara de aguardente, e adormeceram, com o rosto voltado para as estrelas. A princípio eu sentira desejo de lhes pedir que me levassem consigo e me ensinassem a tocar os seus instrumentos; mas não tive coragem, sem dúvida porque é sempre muito difícil a gente se decidir a qualquer coisa, e também porque eu temia ser apanhado antes de me achar fora da França.

O ar pouco interessado dos três outros companheiros fez-se pensar que aquele era já um incompreendido. Fitava-o, atento: havia nos seus olhos e na sua frente esse não sei quê de preconcemente fatal que em geral afasta a simpatia, e que, inexplicavelmente, excitava a minha, de tal maneira que em dado instante me veio a ideia de que eu podia ter um irmão desconhecido de mim mesmo.

O Sol tinha-se posto. Reinava agora a noite solene. Os meninos separam-se, indo cada um deles, sem o saber, ao léu das circunstâncias e dos acasos, amadurecer o seu destino, escandalizar o próximo e gravitar para a glória ou para a desonra.

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