BOCCACCIO (1313-1375)

— Ai de mim! Infeliz de mim! Desgraçada de mim! Em que má hora nasci eu! Em que lugar vim eu ao mundo! Eu, que teria podido escolher um jovem de bem, e que não o quis, apenas para dar preferência a este marido que não pensa na mulher que levou para a sua casa! As outras esposas gozam a vida, com os seus amantes; não há uma delas que não tenha dois, e até três amantes. E gozam a vida. E fazem com que os maridos aceitem a lua pelo sol. E eu, infeliz de mim! Só porque sou bondosa, e porque não me entrego a essas novidades, não tenho sorte. Eu até nem sei mais por que é que não arranjo alguns amantes, como fazem as outras. Trate de entender bem as coisas, meu marido; se eu quisesse praticar o mal, bem que eu encontraria com quem; muitos moços elegantes existem por ai, que me amam, que me querem bem, e que já me mandaram oferecer muito dinheiro, e perguntar se o que eu mais quero são roupas, ou joias. Entretanto, nunca cedi, porque nunca fui filha de mulher que fizesse semelhante coisa. E pensar que você volta para casa quando deveria estar trabalhando!

O DECAMERÃO
Sétima Jornada; Dionéio
Segunda Novela: Filóstrato

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