STENDHAL (1783-1842)

Algumas horas depois, quando saiu do quarto, Julien podia dizer a si mesmo, em estilo de romance, que não tinha mais nada a deseja. Com efeito, graças ao amor que inspirara e à impressão imprevista que encantos sedutores haviam causado nele, alcançou uma vitória que toda a sua canhestra habilidade não teria sido capaz de conquistar.

Entretanto, nos momentos mais ternos, vítima de um estranho orgulho, ainda tentava desempenhar o papel de homem acostumado a subjugar as mulheres; fez incríveis esforços de concentração para estragar o que tinha de cativante. Em vez de atentar aos arroubos que despertava e aos remorsos que os tornavam ainda mais vivos, a ideia de dever em nenhum momento de estar presente a seus olhos. Temia um remorso terrível e um ridículo eterno, caso se afastasse do modelo ideal que se propunha seguir. Numa palavra, o que fazia de Julien um ser superior foi precisamente o que impediu de experimentar a felicidade que se oferecia a ele. Era como uma mocinha de dezesseis anos e tez encantadora que, para ir ao baile, comete a loucura de passar ruge.

O VERMELHO E O NEGRO

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