O SONHO DE UM CURIOSO

CHARLES  BAUDELAIRE




Conheces tu, como eu, essa dor saborosa,
E que te faz dizer: "Oh, homem singular!"
- Morrer eu ia. Havia em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;

Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.


Eu era como a criança à espera de do espetáculo,
Odiando o pano como se odeia um obstáculo...
Mas a fria verdade enfim se revelou:

Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. - Mas como? o que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.

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