MIL E UMA NOITES

Parte, amigo! larga tudo e parte! Tu acharás logo outros amigos, além daqueles que deixas. Eia! Sai das casas e arma as tendas. Habita uma tenda, pois é nela, e somente nela, que moram as delícias da vida.


Nas residências estáveis, e civilizadas, não há nenhum fervor, não há nenhuma amizade. Crê em mim! Foge de tua pátria, e embrenha-te no país da mais profunda distância. Escuta: tenho observado que a água que pára, apodrece. Ela poderia no entanto curar-se da sua podridão pondo-se a correr. Mas, de outro modo, será incurável.


Tenho observado também a lua cheia, e contei o número dos olhos do seu brilho. Mas, se eu não me tivesse dado ao trabalho de fazer o curso de suas revoluções, teria eu conhecido os olhos de cada fase, que me vêem?


E o leão? Teria eu podido dar caça ao leão, se não o tivesse expulsado da floresta densa?… E a flecha? Seria mortal se não tivesse sido lançada com a força do arco retesado?


E o ouro ou a prata? Seriam mais do que poeira vil no interior de sua jazidas? E quanto ao harmonioso alaúde, tu bem sabes: não seria mais do que um pedaço de lenha, se o operário não a tivessem arrancado à terra para modificá-la.


Muda de terra, e atingirás os alcantis. Mas, se ficares preso ao teu solo, jamais poderás subir às colinas.

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