FLAUBERT (1821-1880)

- Já lhe aconteceu alguma vez - retomou Léon - encontrar num livro uma ideia vaga que se teve, alguma imagem obscurecida que volta de longe, e como a exposição inteira do seu sentimento mais sutil?

- Experimentei isso - respondeu ela.

- É por isso que - disse ele - gosto sobretudo dos poetas. Acho os versos mais ternos do que a prosa, e que eles fazem chorar mais facilmente.

- Entretanto, com o tempo, eles cansam - retomou Emma -; e agora, ao contrário, adoro as histórias que se seguem num só fôlego, onde se tem medo. Detesto os heróis comuns e os sentimentos temperados, como existem na natureza.

- De fato - observou o escrivão -, ao não tocar os corações, essas obras se afastam, parece-me, do verdadeiro objetivo da Arte. É tão doce, entre os desencantos da vida, poder evocar, em ideia, nobres personalidades, afeições puras e quadros de felicidade. Quanto a mim, vivendo aqui, longe do mundo, é minha única distração; mas Yonville oferece tão poucos recursos!

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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