FLAUBERT (1821-1880)

- A minha mulher não cuida disso - disse Charles -; ela prefere, embora se lhe recomende o exercício, ficar sempre em seu quarto, lendo.

- É como eu - replicou Léon -; o que há de melhor, realmente, do que ficar à noitinha no canto da lareira com um livro, enquanto o vento bate nas vidraças, a lamparina queima?...

- Não é mesmo? - disse ela, fixando sobre ele os grandes olhos negros bem abertos.

- Não se pensa em nada - continuou ele -, as horas passam. A gente passeia imóvel por lugares que acredita ver, e o seu pensamento, lançando-se à ficção, brinca nos detalhes ou persegue o contorno das aventuras. Ele se mescla às personagens; parece que é a gente que palpita sob as suas roupas.

- É verdade! É verdade! - dizia ela.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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