FLAUBERT (1821-1880)

- Vocês têm, pelo menos, alguns passeios pelos arredores? - continuava a Sra. Bovary, falando com o jovem.

- Oh! muito pouco - respondeu ele. - Há um lugar a que chamam Pasto, no alto da encosta, à beira da floresta. Às vezes, aos domingos, eu fico com um livro, a contemplar o sol poente.

- Não acho nada mais admirável do que os sóis poentes - retomou ela -, principalmente à beira-mar.

- Oh! eu adoro o mar - disse o sr. Léon.

- E, além disso, não lhe parece - replicou a sra. Bovary -, que o espírito vaga mais livremente sobre essa extensão sem limites, cuja contemplação eleva a alma da gente e dá ideias de infinito, de ideal?

- Acontece o mesmo com as paisagens de montanha - retomou Léon. - Tenho um primo que viajou pela Suíça no ano passado e que me dizia que não se pode imaginar a poesia dos lagos, o encanto das cascatas, o efeito gigantesco das geleiras. Veem-se pinheiros de uma grandeza incrível, transversais às torrentes, as cabanas suspensas sobre precipícios e, a mil pés abaixo, vales inteiros, quando se entreabrem as nuvens. Esses espetáculos devem entusiasmar, dispor à oração, ao êxtase! Assim, não me espanto mais com aquele músico famoso que, para melhor excitar a imaginação, costumava ir tocar piano diante de algum sítio imponente.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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