CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A CORDA

- AS ILUSÕES - dizia-me um amigo - são talvez tão inumeráveis quanto as relações dos homens entre si, ou dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, isto é, quando vemos o ser ou o fato tal como ele existe fora de nós, experimentamos estranho sentimento, misto de saudade do fantasma desaparecido e de agradável surpresa ante a novidade, ante o fato real. Se existe fenômeno evidente, trivial, sempre semelhante, e sobre cuja natureza é impossível a gente enganar-se, é o amor materno. Mãe sem amor materno é coisa tão difícil de imaginar como luz sem calor; não é, pois, inteiramente legítimo atribuir ao amor materno todas as ações e palavras de uma mãe relativas a seu filho? No entanto, escute uma pequena história, em que fui singularmente mistificado pela ilusão mais natural.

"Minha profissão de pintor leva-me a fitar com atenção os rostos, as fisionomias que se apresentam no meu caminho, e sabe você quanta alegria nos dá essa faculdade que representa a vida, aos nossos olhos, mais viva e mais significativa que aos olhos dos outros homens. No bairro distante em que moro, e onde vastos espaços cobertos de relva ainda separam as construções, observei muitas vezes uma criança cuja fisionomia ardente e vivaz, mais que todas as outras, me seduziu desde o primeiro instante. Ele posou para mim mais de uma vez, e eu o transformava ora em pequeno boêmio, ora em anjo, ora em Amor mitológico. Fi-lo portar o violino de vagabundo, a Coroa de Espinhos e os Cravos da Paixão, e o Facho de Eros. Afinal, tão vivamente me encantou a graça desse garoto que um dia pedi a seus pais, gente pobre, que o deixassem ficar em minha companhia, comprometendo-me a vesti-lo bem, dar-lhe algum dinheiro e não lhe impor outra tarefa senão a de limpar-me os pincéis e fazer-me as compras. O menino, bem lavado, tornou-se encantador, e a vida que levara em minha casa parecia-lhe um paraíso, comparada à que teria suportado no casebre paterno. Devo, porém, dizer que o pequeno algumas vezes me espantou com umas crises singulares de tristeza precoce, e logo manifestou imoderado gosto pelo açúcar e pelos licores; a tal ponto que um dia, tendo eu verificado que, a despeito das minhas numerosas advertências, ele praticara novo furto desse gênero, ameacei-o de fazê-lo voltar para casa dos pais. Depois saí, e os negócios retiveram-me fora por muito tempo.

"Qual não foi o meu horror e espanto quando, ao entrar em casa, o primeiro objeto que me feriu os olhos foi o meu rapazinho, o gracioso companheiro de minha vida, enforcado na porta deste armário! Seus pés quase tocavam o soalho; ao lado dele, via-se, virada, uma cadeira, que ele sem dúvida empurrara com o pé; tinha a cabeça pendida convulsivamente sobre um dos ombros; o rosto, intumescido, e os olhos, arregalados, com uma fixidez medonha, deram-me, ao primeiro instante, a ilusão da vida. Dependurá-lo não era tarefa tão fácil como você talvez imagine. Ele já estava muito rígido, e eu sentia inexplicável repugnância a idéia de fazê-lo subitamente cair ao solo. Era preciso sustentar-lhe todo o corpo com um braço e, com a mão do outro braço, cortar a corda. Mas isso não bastava: o pequeno servira-se de um cordel muito fino, que lhe entrara fundo nas carnes, e fazia-se necessário procurar a corda, com finas tesouras, entre as duas saliências da inchação, para desembaraçar-lhe o pescoço.

"Esqueci-me de lhe dizer que eu, ansiosamente, pedira socorro; mas todos os meus vizinhos se haviam recusado a prestar-me auxílio, fiéis aos costumes do homem civilizado, que foge sempre, não sei por quê, a meter-se em casos de enforcamento. Por fim, veio um médico e declarou que o garoto morrera já muitas horas antes. Quando, mais tarde, tivemos de o despir, para o enterro, a rigidez cadavérica era tal que, perdendo a esperança de lhe dobrar os membros, fomos obrigados a rasgar e cortar as vestes para poder tirá-las.

"O comissário a quem tive, naturalmente, de comunicar o fato, olhou-me de esguelha e disse-me: - 'Olhe que essa história está mal contada!' - movido, sem dúvida, por um desejo inveterado, e um hábito de ofício, de fazer medo, a todo o transe, aos inocentes como aos culpados.

"Faltava-me realizar uma tarefa suprema; só de imaginá-la eu sentia terrível angústia: devia avisar aos pais. Meus pés se recusavam a levar-me. Enfim, criei coragem. Mas, com grande espanto de minha parte, a mãe ficou impassível; nem uma lágrima lhe pingou o canto do olho. Atribuí esta singularidade ao próprio horror que ela devia experimentar, e lembrei-me da conhecida sentença: 'As dores mais terríveis são as dores mudas.' O pai, esse limitou-se a dizer, com ar meio atoleimado, meio distraído: - 'Afinal de contas, talvez seja melhor assim: ele de qualquer modo acabaria mal!'

"Entretanto o corpo achava-se estendido no meu divã, e, assistido por uma criada, cuidava eu dos últimos preparativos, quando a mãe entrou no meu estúdio. Queria ver o cadáver do filho. Não me era possível, em verdade, impedi-la de se embriagar com a sua desgraça, recusar-lhe esta suprema e sombria consolação. Depois, pediu-me que lhe mostrasse o lugar onde o seu filhinho se enforcara. - 'Oh! não, senhora - respondi-lhe -, isto lhe faria mal.' E, como por ação instintiva os meus olhos se voltassem para o fúnebre armário, notei, com um pesar mesclado de horror e cólera, que na parede do armário ficara presa num prego uma longa corda que ainda se arrastava. Precipitei-me para arrancar esses últimos vestígios da desgraça, e ia atirá-los fora pela janela aberta, quando a pobre mulher me segurou pelo braço, dizendo-me com uma voz irresistível: - 'Oh! senhor! deixe isto para mim! eu lhe peço! eu lhe suplico!' Decerto, pensei, o desespero a tinha enlouquecido a tal ponto que ela agora se enchia de ternura pelo que servira de instrumento à morte do filho, e queria guardá-lo como horrível e cara relíquia. - E apoderou-se do prego e do cordel.

"Enfim! enfim! tudo acabara. Não me restava senão voltar ao trabalho mais intensamente ainda que de costume, para afugentar pouco a pouco esse pequeno cadáver, que não saía do recesso do meu cérebro, e cujo fantasma me atormentava com os seus grandes olhos fixos. No dia seguinte, porém, recebi um maço de cartas: umas, dos locatários de minha casa; outras, das casas vizinhas; umas do primeiro andar, outra do segundo, outra do terceiro, e assim por diante; umas, em estilo meio jocoso, como procurando disfarçar sob um aparente gracejo a sinceridade do pedido; outras; grosseiramente francas e sem ortografia; todas, porém, visantes ao mesmo objetivo: obter de mim um pedaço da corda funesta e beatifica. Entre os signatários havia, devo dizê-lo, mais mulheres do que homens; mas, acredite, nenhum deles pertencia à classe média ínfima e vulgar. Guardei todas essas cartas.

"E então, de súbito, fez-se um clarão no meu entendimento, e compreendi por que a mãe tinha tanto empenho em me arrebatar a corda e de que comércio se valia para consolar-se."

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