CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

MORTE HERÓICA

ERA FANCIULLO um admirável bufão, e quase um dos amigos do Príncipe. Mas, para os cômicos de profissão, as coisas sérias têm atrações fatais, e, conquanto possa parecer estranho que as idéias de pátria e liberdade se apoderem despoticamente do cérebro de um histrião, certo dia Fanciullo entrou numa conspiração tramada por alguns fidalgos descontentes.

Há em toda parte pessoas de bem para denunciarem ao poder esses indivíduos de humor arbitrário que pretendem depor os príncipes e operar, sem consultá-la, a desorganização de uma sociedade. Os tais senhores foram presos junto com Fanciullo, e destinados a morte certa.

Sinto-me inclinado a crer que o Príncipe quase se aborreceu por encontrar entre os rebeldes o seu comediante favorito. O Príncipe não era nem melhor nem pior do que outro qualquer; mas uma sensibilidade excessiva tornava-o, em muitos casos, mais despótico e mais cruel que todos os seus iguais. Amante apaixonado das bela-artes, aliás excelente conhecedor da matéria, era de positivamente insaciável de volúpias. Indiferente aos homens e à moral, verdadeiro artista, não conhecia inimigo perigoso a não ser o Tédio, e os extraordinários esforços que fazia para evitar ou vencer esse tirano do mundo lhe haveriam sem dúvida granjeado, da parte de um historiador severo, o epíteto de "monstro", se se pudesse, nos seus domínios, escrever fosse o que fosse que não tendesse apenas ao prazer, ou à surpresa, uma das mais delicadas formas do prazer. A grande desventura deste Príncipe foi que ele não teve nunca um teatro bastante amplo para o seu gênio. Há jovens Neros que sufocam em limites demasiado estreitos, e de cujo nome e boa vontade jamais terão conhecimentos os séculos vindouros. A esse, dera-lhe a imprevidente Providência faculdades maiores que os seus Estados.

De repente correu o boato de que o soberano estava disposto a conceder perdão a todos os conjurados; e a origem de tal boato foi o anúncio de um grande espetáculo em que Fanciullo devia representar um dos seus principais, dos seus melhores papéis, e ao qual assistiram, segundo se contava, os próprios fidalgos condenados; sinal evidente, acrescentavam os espíritos superficiais, da generosa índole do Príncipe ofendido.

De homem tão instintiva e voluntariosamente excêntrico tudo era lícito esperar, até a virtude, até a clemência, sobretudo se ele chegara a conceber a esperança de nelas encontrar prazeres imprevistos. Mas para aqueles que, tal como eu, haviam logrado penetrar mais longe nas profundezas daquela alma curiosa e doentia, era mil vezes mais provável que o Príncipe quisesse ajuizar o valor dos talentos cênicos de um homem condenado à morte. Queria aproveitar a ocasião para fazer uma experiência psicológica de interesse capital, e verificar até que ponto as faculdades habituais de um artista podiam ser alteradas ou modificadas pela situação extraordinária em que se encontrava; demais, quem sabe se não existia em sua alma uma intenção mais ou menos contida de clemência? É um ponto que nunca se pode esclarecer.

Afinal, chegado o grande dia, aquela pequena corte exibiu todas as suas pompas, e seria difícil imaginar, sem o ter visto, tudo quanto a classe privilegiada de um Estado modesto, de limitados recursos, pode ostentar de esplendores para uma autêntica solenidade. Aquela era duplamente que se lhe prendia.

D. Fanciullo excelia particularmente nos papéis mudos ou pouco carregados de palavras, que não raro são os principais nesses dramas de magia, cujo objetivo é representar simbolicamente o mistério da vida. Entrou em cena lépido, com absoluto desembaraço, o que influiu para fortalecer no nobre público a idéia de doçura e de perdão.

Quando se diz de um comediante: - "Eis aí um bom comediante" - usa-se uma fórmula da qual se deduz que sob a personagem se deixa adivinhar também o comediante, isto é, a arte, o esforço, a vontade. Ora, se chegasse um comediante a ser, em relação à personagem que lhe cumpre encarnar, o que as melhores estátuas da Antiguidade, miraculosamente animadas, vivas, ambulantes, videntes, seriam em relação à idéia geral e confusa de beleza, isso constituiria, decerto, um caso singular e inteiramente inesperado. Fanciullo foi, naquela noite, uma perfeita idealização, que não se poderia deixar de supor viva, possível, real. O bufão ia e vinha, e ria, e chorava, e contorcia-se, com uma indestrutível auréola a cingir-lhe a fronte, auréola invisível para todos, mas visível para mim, e na qual se misturavam, em desconcertante amálgama, os esplendores da Arte e a glória do Martírio. Não sei por que graça especial, Fanciullo introduzia o sobrenatural e o divino até nas mais extravagantes bufonarias. Minha pena treme, e sobem-me aos olhos lágrimas de uma comoção permanente, enquanto vos procuro descrever aquela inesquecível noite. Fanciullo provava-me, de maneira peremptória, irrefutável, que a embriaguez da Arte é mais apropriada que outra qualquer para velar os terrores do abismo; que o gênio pode representar a comédia à beira do túmulo com uma alegria que lhe impede ver o túmulo - perdido, como está, num paraíso que afasta qualquer ideia de sepultura e destruição.

Todo aquele público, tão embotado e frívolo, logo experimentou o domínio onipotente do artista. Ninguém pensou em morte, em luto, em suplícios. Cada um se entregou, despreocupado, às copiosas volúpias que oferece a contemplação de uma obra-prima de arte viva. As explosões de alegria e de admiração estremeceram reiteradamente as abóbadas do edifício com a energia de um trovão ininterrupto. Até o Príncipe, embriagado, juntou os seus aplausos aos de sua corte.

Contudo, a um olhar clarividente essa embriaguez não era sem contraste. Sentia-se ele vencido no seu poder de déspota? humilhado na sua esperança de aterrorizar os corações e entorpecer os espíritos? frustrado nas suas esperanças e ludibriado nas suas previsões? Estas conjeturas, não exatamente justificadas, mas não de tudo injustificáveis, atravessaram-me o espírito enquanto eu contemplava o semblante do Príncipe, onde uma nova palidez se sobrepunha incessantemente à palidez habitual, como a neve se sobrepõe à neve. Seus lábios cerravam-se cada vez mais, e seus olhos se iluminavam de um fogo intimo, semelhante ao do ciúme e do ódio, mesmo quando ele aplaudia às claras os talentos do velho amigo, o estranho bufão, que com tamanha perícia bufoneava a morte. Em dado instante, vi Sua Alteza inclinar-se para um pequeno pajem, que lhe ficava atrás, e falar-lhe ao ouvido. A fisionomia maliciosa do lindo menino iluminou-se de um sorriso; e em seguida ele deixou, veloz, o camarote princepesco, como para se desempenhar de missão urgente.

Alguns minutos após, um assobio agudo, prolongado, interrompeu Fanciullo num dos seus melhores momentos, e dilacerou a um só tempo os ouvidos e coração. E do ponto da sala de onde irrompera essa inesperada reprovação um menino se precipitava num corredor com risos abafados.

Fanciullo, abalado, desperto de seu sonho, primeiro fechou os olhos, reabriu-os depois, quase no mesmo instante, desmesuradamente dilatados, logo após abriu a boca, como para um respirar convulsivo, claudicou um pouco para diante, um pouco para trás, e por fim caiu em cheio, morto sobre o tablado.

Teria na realidade o assobio, rápido como um gládio, frustrado a ação do carrasco? Teria o Príncipe adivinhado toda a homicida eficácia de sua astúcia? É lícito pô-lo em dúvida. Terá ele lamentado o seu querido e inimitável Fanciullo? É doce e legítimo acreditá-lo.

Os fidalgos delinquentes haviam gozado pela última vez o espetáculo da comédia. Na mesma noite foram riscados da vida.

Desde então vários truões, com justiça apreciados em diferentes países, tem vindo representar perante a corte de***; nenhum deles, porém, chegou sequer a lembrar os maravilhosos talentos de Fanciullo, nem conseguiu alcançar o mesmo favor.

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