CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O TIRO E O CEMITÉRIO

À VISTA DO CEMITÉRIO. Café. - "Singular legenda - disse entre si o nosso passeador -, mas muito boa para dar sede! Seguramente o dono desta taverna sabe apreciar Horácio e os poetas discípulos de Epicuro. Talvez até conheça o refinamento dos antigos egípcios, para quem não havia bom festim sem esqueleto, ou sem um emblema qualquer da brevidade da vida."

E entrou, bebeu um copo de cerveja diante das sepulturas, e fumou lentamente um charuto. Depois, veio-lhe à cabeça descer ao cemitério, cuja relva era tão alta e convidativa, e onde reinava um sol tão rico.

Com efeito, ali a luz e o calor estavam no auge, e dir-se-ia que o Sol bêbedo se espojava a fio comprido sobre um tapete de flores magníficas engordadas pela destruição. Um imenso rumor de vida enchia o ar - a vida dos infinitamente pequenos -, cortado a intervalos regulares pela crepitação dos disparos de um stand de tiro vizinho, que repercutiam como o espocar das rolhas de champanha no sussurro de uma sinfonia em surdina.

Então, sob o Sol que lhe aquecia o cérebro e na atmosfera dos ardentes perfumes da Morte, ouviu uma voz cochilar debaixo do túmulo onde ele estava sentado:

- Malditos sejam os vossos alvos e as vossas carabinas, irrequietos viventes, que tão pouco vos preocupais com os defuntos e com o seu divino repouso! Malditos sejam os vossos cálculos, mortais impacientes, que vindes estudar a arte de matar ao pé do santuário da Morte! Se soubésseis como o prêmio é fácil de alcançar, como o alvo é fácil de atingir, e como tudo é nada, exceto a Morte, não vos fatigareis tanto, laboriosos viventes, e perturbaríeis menor o sono daqueles que, desde muito, atingiram o Alvo, o único verdadeiro alvo da detestável vida!

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