BOCCACCIO (1313-1375)

— Minha filha: Sabe Deus, que sabe todas as coisas, que você faz muito bem; se você o fizesse, ainda que mais não fosse do que pela sua juventude, já estaria justificada, assim devem proceder, você e todas as moças, a fim de não perderem a fase de sua mocidade, porquanto nenhuma dor é igual àquela que se tem quando se percebe que se perdeu o tempo. E para que diabo podemos servir nós, depois de velhas, a não para contemplar as cinzas ao redor da lareira? Se há mulheres que saibam o que isso é, e que possa dar testemunho disso, eu sou uma delas. Agora que sou velha, percebo, e não sem grandes e amargos ressentimentos, o tempo que deixei passar. Sei que não há remédio. Embora eu não tenha perdido, na verdade, o tempo todo, não desejo que você pense que eu tenha sido uma estúpida; o que há é que eu não fiz tudo quanto poderia e deveria ter feito. Ao recordar-me disto, e ao ver-me transformada nisto que você vê, num estado em que não encontro quem quer que seja que me ponha fogo nos trapos, sabe Deus a dor que sinto. Aos homens, não é a mesma coisa que acontece. Eles nascem bons para mil tarefas, e não somente para esta; em sua maior parte, os homens são mais velhos do que moços. As mulheres, porém, só podem fazer uma coisa, e dai nascem filhos; é por isso que são consideradas preciosas. Se você não cria noção de outra coisa, disto, pelo menos você deve formar ideia: nós estamos sempre prontas para esse ato, o que acontece com os homens; além disto, uma só mulher basta para cansar muitos homens, ao passo que muitos homens podem não cansar uma só mulher; e uma vez que foi para isto que nascemos, de novo lhe digo que você faz muito bem em retribuir, ao seu marido, pão por fogaça; por essa forma, o seu espirito, na sua velhice, nada terá a censurar à sua carne. Deste mundo, cada qual recebe aquilo que toma; isto acontece principalmente com as mulheres; cabe às mulheres, muito mais do que aos homens, o aproveitamento máximo de seu tempo. Nestas condições, bem pode ver, quando nós envelhecemos, nem o marido, nem outro homem qualquer, deseja se lá o que for, de nós; aliás, os maridos nos atiram à cozinha, onde ficamos a narrar fábulas à gata, ou a fazer a lista das caçarolas e das tigelas. Pior ainda: eles chegam até a nos fazer figurar em canções e provérbios; dizem, com efeito: “Para as moças, os bons bocados; para as velhas, as dores dos rins”. Muitas coisas mais os homens dizem de nós, quando nos tornamos idosas. E, a fim de que eu não lhe diga mais palavras, esclareço, desde logo, que nenhuma pessoa deste mundo, a quem você revelasse as suas intenções, poderia ser-lhe mais útil do que; porque não existe homem que seja tão valoroso a ponto de impedir que eu me arrisque a dizer-lhe o que tiver para lhe dizer; nem há, por outro lado, homem que seja tão duro, ou tão grosseiro, a ponto de não deixar que eu o amoleça e o conduza àquilo a que eu desejo que ele chegue. Assim, trate de me mostrar qual é o homem que lhe agrada; e deixe, depois, o caso por minha conta. Uma coisa, porém, quero recordar a você, minha filha: desejo que você me recompense bem, uma vez que sou mulher pobre; quero, ademais, que você participe das minhas regras, bem como de todos os padre-nossos que eu disser, para que Deus os transforme em lume e vela, em beneficio dos mortos que você tiver.

O DECAMERÃO
Quinta Jornada: Fiammetta
Décima Novela: Dionéio

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