BOCCACCIO (1313-1375)

— Não sei se devo dizer que isto decorre de vício acidental, ou de malvadez de costumes que possa ter acometido os mortais; também ignoro se provém de pecado da Natureza; mas é certo que as criaturas humanas se inclinam a rir mais das más ações do que das boas, principalmente quando aquelas más ações não as atingem. O trabalho de fazer-lhes narrativas, que já outras vezes realizei, e que agora estou para realizar de novo, nenhuma outra finalidade tem, que não seja a de lhes dissipar toda tristeza, proporcionando-lhes riso e alegria. Entretanto, a substância da minha narrativa seguinte, oh! moças enamoradas, é, em parte, menos do que honesta; mesmo assim, eu a farei, visto que pode oferecer diversão. Ouvindo-a, façam vocês, com ela, o que costumam fazer quando entram num jardim; no jardim, vocês estendem a mão, colhem as rosas, e deixam ficar os espinhos; vocês farão a mesma coisa com a minha novela, deixando de lado o mau homem, com a sua má sorte, bem como a sua desonestidade; poderão rir dos enganos amorosos da sua mulher; e terão compaixão das desventuras alheias, onde for o caso.

O DECAMERÃO
Quinta Jornada: Fiammetta
Décima Novela: Dionéio

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