STENDHAL (1783-1842)

"Por que não passar a noite aqui?", pensou. "Tenho pão e sou livre!" Ao som dessas palavras grandiosas, sua alma exaltou-se; a hipocrisia não lhe permitia ser livre nem na casa de Fouqué. A cabeça apoiada nas duas mãos, olhando a planície, agitado pelos devaneios e pelo gozo da liberdade, Julien sentiu-se mais feliz na gruta do que jamais fora em sua vida. Sem perceber, viu se apagar, um após o outro, todos os raios do crepúsculo. Em meio à escuridão imensa, sua alma perdia-se na contemplação do que imaginava encontrar um dia em Paris. Em primeiro lugar, uma mulher muito bonita e de espírito bem superior a tudo o que já vira na província. Amava com paixão e era amado. Se dela se separava por alguns instantes, era para ir recobrir-se de glória e merecer ainda mais amor.

O VERMELHO E O NEGRO

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