JORGE DE LIMA (1895-1953)

Em nome de Mira-Celi,
levantai-vos soldados caídos para sempre na luta, desde Abel até hoje.
Não deveis quedar-vos sob os húmus das mesopotâmias,
é tempo de despertardes,
de acordar-vos de vosso sono milenar nos outeiros sagrados!
Em nome de Mira-Celi, acordai, soldados caídos nas guerras:
é tempo de abandonardes estes imensos campos cobertos de cruzes
ou as valas anônimas em que misturais vossos ossos;
é tempo de afastar os eternos gelos em que haveis mergulhado lutando;
em que aliviais as queimaduras da pólvora;
os vossos cavalos cegos ou mutilados vêm alta noite relinchar dentro das ventanias;
acalmai vossos corcéis;
vinde com eles, que é tempo de despertar.
Em nome de Mira-Celi, regressai, soldados desaparecidos nos êxodos
ou refugiados na morte, aviltados pelas deserções, fuzilados como traidores ou espiões;
é tempo de levantar vossas frontes enegrecidas;
regressai, soldados covardes ou fugitivos
ou de peitos arrombados pelas metralhas
ou enforcados ou martirizados ou arremessados de aviões e de pára-quedas;
é tempo de despertar do solo de vossas pátrias,
soldados que haveis tombado em milhares de guerras
que a memória do homem esqueceu,
ou das guerras que a história não registrou,
ou que nunca foram encontrados no mar,
ou desapareceram na voragem dos bombardeios,
soldados desmemoriados, loucos ou conscientes que abençoaram ou amaldiçoaram a guerra,
soldados que vos suicidastes, é tempo de desertar.
Em nome de Mira-Celi, vinde, soldados tombados em todas as guerras!
É tempo de desertar!
E, com a força dos milhões e milhões que representais,
arrasar na superfície da terra ou no ar
ou no fogo ou na água aquilo que é preciso arrasar.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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