FLAUBERT (1821-1880)

O farmacêutico respondeu:

- Eu tenho uma religião, a minha religião, e tenho até mais do que todos eles, com as suas macaquices e seus malabarismos! Eu adoro a Deus, pelo contrário! Acredito no Ser supremo, em um Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos colocou neste mundo para cumprir nossos deveres de cidadão e de pai de família; mas não tenho necessidade de ir, numa igreja, beijar pratos de prata, e engordar com o meu bolso um monte de farsantes que se alimenta melhor do que nós! Porque é possível honrá-lo tão bem em um bosque, num campo ou até contemplando a abóboda etérea, como os antigos. O meu Deus, para mim, é o Deus de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e Béranger! Sou pela Profissão de fé do vigário de Saboia e os imortais princípios de 89. Assim, não admito um homenzinho de bom Deus que passeia em seu canteiro com uma bengala na mão, aloja os seus amigos no ventre das baleias, morre lançando um grito e ressuscita ao fim de três dias: coisas absurdas em si mesmas e complemente opostas, aliás, a todas as leis da física; o que nos demonstra, de passagem, que os padres sempre chafurdaram numa ignorância torpe, em que se esforçam por engolfar consigo as populações.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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