DICKENS (1812-1870)

Uma das mais notáveis vítimas do mesmo machado, uma mulher, havia pedido, ao pé do mesmo patíbulo, não muito tempo antes, que lhe permitissem escrever os pensamentos que a estavam inspirando. Se ele tivesse expressado os seus pensamentos, e se estes fossem proféticos, seriam assim:

“Vejo Barsad e Cly, Defarge, ‘A Vingança’, os jurados, o juiz, longas fileiras de novos opressores que se ergueram para destruir os antigos, parecendo sob o mesmo instrumento de vingança antes que seu uso seja abandonado. Vejo uma linda cidade e um povo brilhante surgindo do abismo e, em suas batalhas pela verdadeira liberdade, em seus triunfos e derrotas, através de muitos e muitos anos no futuro vejo o mal deste tempo e o do tempo anterior, do qual é o fruto natural, gradualmente sendo expiado e redimido.
Vejo as vidas pelas quais doei a minha vida, serenas, úteis, prósperas e felizes, naquela Inglaterra que não verei jamais. Eu a vejo com uma criança no colo, que tem o meu nome. Vejo o pai dela, velho e curvado, mas saudável e fiel a todos os homens em seu ofício de cura, e em paz. Vejo o bom ancião, amigo tão antigo deles, dentro de dez anos, enriquecendo-os com tudo quanto possui, e tranquilamente recebendo sua recompensa.
Vejo que tenho um santuário em seus corações, e nos corações de seus descendentes, por várias gerações. Eu a vejo, idosa, chorando por mim no aniversário deste dia. Eu a vejo e a seu marido, tendo percorrido o caminho, jazendo lado a lado em seu último leito terreno, e sei que cada um não foi mais querido e sacralizado na alma do outro do que eu na alma dos dois.
Eu vejo aquela criança que se aconchegou no colo dela e que tem o meu nome, já homem feito, conquistando vitórias no campo que um dia foi o meu. Eu o vejo tão vitorioso que meu nome se torna ilustre pela luz de seus feitos. Vejo as máculas que atirei sobre meu nome desaparecerem. Eu o vejo como o primeiro entre os juízes e os homens honrados, conduzindo um menino, que também tem o meu nome e a fronte expressiva que conheço e os cabelos dourados, a este lugar, que será tão bonito de se olhar, desprovido de qualquer vestígio da desfiguração deste dia, e eu o ouço contar ao filho a minha história, com voz tenra e comovida.
O que faço hoje é muito, muito melhor do que tudo quanto já fiz. E a paz que tenho hoje é muito, muito maior do que a paz que jamais conheci.”

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo XV. Últimos Ecos

Comentários