DICKENS (1812-1870)

Os carros fúnebres desfilam ruidosamente pelo leito áspero e esburacado das ruas de Paris. Seis carros mortuários carregam o vinho de cada dia para La Guillotine. Todos os devoradores e insaciáveis monstros imaginados desde que a imaginação surgiu no Homem se fundiram numa única realização, a Guilhotina. E, contudo, não existe na França, a despeito de sua rica variedade de solo e de clima, uma folha, ou grama, ou raiz, ou um ramo novo, ou um grão de pimenta que possa amadurecer em condições melhor do que aquelas que engendravam esse horror. Devolva-se a humanidade à forja que a criou e utilizem-se martelos semelhantes para tornar a esculpi-la e ela se contorcerá na mesma imagem torturada. Cultivem-se de novo as mesmas sementes de desordem e opressão rapaces e certamente serão colhidos os mesmos frutos amargos. 

Seis carros mortuários rodam com estrondo pelas ruas de Paris. Faça-os regressar ao que eram antes, ó Tempo, poderoso mago, e eles serão vistos como luxuosas carruagens de monarcas absolutos, como equipagens de nobres feudais, como toucadores de mulheres deslumbrantes como Jezebel, como igrejas que não a casa de meu Pai, mas covis de ladrões, como choupanas de milhares de camponeses esfaimados! Não. O grande mago que majestosamente executa a ordem estabelecida pelo Criador jamais reverte as transformações que promoveu. “Se tu assumiste essa forma por vontade de Deus”, dizem os videntes ao encantado nos sábios contos árabes, “então conserva-te como estás! Mas, se tu assumiste essa forma por mero passe de mágica, então volta a teu aspecto anterior!”. Inalterados e sem esperança, os carros fúnebres desfilam.
À medida que as sinistras rodas das seis carroças giram, parecem arar um sulco profundo e torturoso entre o populacho ao longo das ruas. Estrias de rostos são arremessadas de um lado e de outro, e os arados seguem em frente. Tão habituados estão os habitantes das casas àquele espetáculo que, em muitas janelas, não se vê ninguém e, em outras, a escassa platéia não interrompe o trabalho manual enquanto seus olhos fiscalizam as faces que desfilam nos carros mortuários. Aqui e ali, os moradores recebem visitantes que foram apreciar a exposição; então, apontam os dedos, com a complacência de um curador ou de um expositor autorizado, para essa e aquela carroça, aparentemente informado quem desfilou por ali ontem e anteontem.
Dos ocupantes dos carros, uns observam esses detalhes e todos os demais ao longo de seu derradeiro trajeto, com um semblante impassível; outros, com um persistente interesse pelos caminhos da vida e dos homens. Alguns, sentados de cabeça baixa, estão imersos em silencioso desespero, há alguns tão zelosos de sua aparência que lançam à multidão olhares copiados de peças teatrais e de quadros. Muitos, de olhos fechados, meditam ou procuram organizar seus caóticos pensamentos. Apenas um, uma criatura miserável com aspecto ensandecido, está tão alucinado e embriagado de horror que canta e tinta dançar. Nenhum deles apela, por gestos ou por palavras, para a compaixão do povo.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo XV. Últimos Ecos

Comentários