CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A SOPA E AS NUVENS

A LOUCA da minha bem amada me dava de jantar, e pela janela aberta da sala de refeições eu contemplava as movediças arquiteturas que Deus faz com as nuvens, as maravilhosas construções do impalpável. E dizia comigo, através da minha contemplação: - "Todas estas fantasmagorias são quase tão belas quanto os olhos de minha amada, a pequena louca monstruosa de olhos verdes."

De súbito senti um violento morro nas costas e ouvi uma voz rouca e encantadora, uma voz histérica, e como enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amada, que me dizia:

- Trate de tomar a sua sopa, seu maluco, mercador de nuvens!

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