CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O GALANTE ATIRADOR

A CARRUAGEM atravessava o bosque, quando ele a fez parar nas proximidades de um stand de tiro, dizendo que lhe seria agradável atirar algumas balas para matar o Tempo. Matar esse monstro não é a ocupação mais comum e mais legítima de cada um de nós? E ele, galanteamos, ofereceu a mão à sua querida, deliciosa e execrável mulher, a essa misteriosa criatura a quem deve tantos prazeres, tantas dores, e talvez também grande parte do seu gênio.

Diversas balas foram ter longe do alvo; uma delas chegou a penetrar no teto; e, como a encantadora mulher ria loucamente, zombando da inabilidade do esposo, este se voltou de súbito para ela e disse-lhe:

- Veja aquela boneca, ali, à direita, de nariz no ar e de aparência tão soberba. Pois bem, caro anjo, faço de conta que é você.

E fechou os olhos e puxou os gatilhos. A boneca ficou inteiramente decapitada.

Então, inclinando-se para sua querida, sua deliciosa, sua execrável mulher, sua inevitável e implacável Musa, e beijando-lhe com respeito a mão, acrescentou:

- Ah! meu caro anjo! quanto lhe sou grato pela minha habilidade!

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