CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

UM CAVALO DE RAÇA

ELA É MUITO FEIA. E, todavia, é deliciosa!

O Tempo e o Amor assinalaram-na com as suas garras e cruelmente lhe ensinaram o que cada minuto e cada beijo levam de mocidade e de frescura.

Ela é positivamente feia; é formiga, aranha, até esqueleto, se quiserem; mas é também beberagem, magistério, bruxedo! Em suma, ela é sutil.

O Tempo não conseguiu desfazer a cintilante harmonia do seu andar, nem a indestrutível elegância do seu porte. O Amor não lhe alterou a suavidade infantil do hálito; e o Tempo não lhe arrancou um fio da abundante cabeleira, donde se exala em fulvos perfumes toda a furiosa vitalidade do Meio-Dia francês: Nimes, Aix, Aries, Avignon, Narbonne, Toulousse, cidades abençoadas pelo Sol, amorosas e encantadoras!

Debalde o Tempo e o Amor a têm ultrajado: nada lhe diminuíram do encanto vago, mas eterno, do seu busto juvenil.

Grata, talvez, mas não fatigada, e sempre heróica, ela nos faz pensar nesses cavalos de fina raça que o olho do verdadeiro amador reconhece, ainda quando atrelados a um coche de aluguel ou a uma pesada carroça.

E, depois, ela é tão doce e tão ardente! Ela ama como se ama pelo outono; dir-se-ia que a aproximação do inverno lhe acende novo fogo no coração, e o servilismo de sua ternura nada tem de cansativo.


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