BOCCACCIO (1313-1375)

Não tardou a evidência do fundamento da realidade da sua convicção. Depois de estar Gerbino uns poucos dias nas costas da Sardenha, aquele navio, levado por pouco vento, apareceu, não muito longe do ponto em que o neto do Rei Guilherme se havia postado, à sua espera. Vendo-o, Gerbino disse, aos seus companheiros:
— Senhores: se os senhores são, de fato, tão valorosos como eu os considero, é certo que já souberam, ou que estão ainda sabendo, o que é o amor. Ao que eu penso, de mim para comigo, nenhum mortal pode ter, em si, qualquer virtude, ou mesmo algum bem, desde que não tenha amor. Se os senhores já estiveram enamorados, ou ainda o estão, coisa fácil lhes será o compreender o meu desejo. Eu amo; e o amor me induziu a proporcionar-lhes o presente esforço; o que eu amo se encontra no navio que os senhores estão vendo ali adiante. Aquele navio, trazendo aquilo que eu mais desejo, está cheio de enormes riquezas; se os senhores são homens valorosos, e se combaterem virilmente; com pouco trabalho poderão conquistar os seus tesouros. Da vitória, não quero parte alguma, a não ser uma mulher; é pelo amor dela que me lanço à luta; tudo o mais que no navio houver será de livre propriedade dos senhores. Vamos, pois; assaltemos aquele navio, e que a boa sorte nos favoreça. Deus se mostra propício ao nosso empreendimento, porquanto, uma vez que não faz o vento soprar, obriga o navio a ficar parado.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato
Quarta Novela: Elisa

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