JORGE DE LIMA (1895-1953)

Vim para dar-te notícias deste mundo, sombra amiga, e eis que meus companheiros se deitam e se levantam ensaguentados como o sol. Já não acertam chamar-te com teu nome terrestre, pois seus lábios estão mais lívidos que o sangue dos mortos.

Corre entre o ar e o homem uma cantiga urdida de sortilégios: em cada coisa vivente a destruição começou.
Vim para dar-te notícias, e eis que minha voz reboa com tais dimensões desconhecidas que me parece um pássaro de espanto.

Murmuro tua alegria, nesta aba de deserto; mas o eco total do mundo me estremece.

Pende teu ouvido para que eu nele me infunda e te diga: "Intercede para que renasçam as memórias abolidas dos itinerários de ascensão."

Não há maior castigo do que a dúvida de possuir-se um coração mortal em holocausto à sanha dos irmãos.

Nem pena mais funda que esta de nos sentirmos mais travosos que as raízes.

Pende mais o ouvido: "Estamos confundindo o medo com a humildade ou mesmo com o frio deste inverno perene."

Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.

As poderosas nações trituram o hálito entre os dentes.

Vozes vindas de rasgados confins começaram a imprecar desde ontem.

Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

Comentários