FLAUBERT (1821-1880)

- Que posso fazer para servi-lo, senhor vigário? - perguntou a dona do albergue, enquanto pegava sobre a lareira uma das tochas de cobre que ali se encontravam dispostas em colunata com suas candeias; o senhor quer tomar alguma coisa? Um dedo de cassis, um copo de vinho?

O eclesiástico recusou muito civilmente. Viera buscar o guarda-chuva, que havia esquecido no outro dia no convento de Ernemont e, depois de ter solicitado à sra. Lefrançois que lho mandasse entregar no presbitério à tarde, saiu para ir à igreja, onde já se tocava o Ângelus.

Quando o farmacêutico não ouviu mais na praça o barulho de seus sapatos, achou muito inconveniente a sua conduta de há pouco. Aquela recusa a aceitar um refresco lhe parecia uma hipocrisia das mais odiosas; todos os padres bebericavam sem que os vissem e tentavam recuperar o tempo do dízimo.

A hospedeira tomou a defesa do vigário:

- Aliás, ele dobraria quatro como o senhor em cima do joelho. Na semana passada, ele ajudou a nossa gente a recolher a palha; carregava até seis feixes de uma vez, de tão forte que é!

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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