FLAUBERT (1821-1880)

- Não são as civilidades que vão lhe gastar a língua! - disse o farmacêutico, logo que ficou a sós com a hospedeira.

- Ele nunca fala mais do que isso - respondeu ela -; estiveram aqui, na semana passada, dois viajantes com ternos de casimira, rapazes cheios de espirituosidade que contavam, à noite, um monte de anedotas que me faziam morrer de rir; pois bem, ele ficava ali, como um dois de paus, sem dizer uma palavra.

- É disse o farmacêutico -, sem imaginação, sem chistes, nada do que constitui um homem de sociedade!

- Dizem, entretanto, que ele tem meios - objetou a hospedeira.

- Meios? - replicou o sr. Homais - ele! Meios? No que diz respeito a ele, é possível - acrescentou num tom mais calmo.

E retomou:

- Ah! que um negociante que tenha relacionamentos consideráveis, que um jurisconsulto, um médico, um farmacêutico estejam tão absorvidos, que se tornem caprichosos e ríspidos até, eu entendo; citam-se traços assim nas histórias! Mas, pelo menos, é que pensam em alguma coisa. Eu, por exemplo, quantas vezes me aconteceu procurar a minha caneta sobre a escrivaninha para escrever uma etiqueta e descobrir, afinal, que eu a tinha colocado atrás da orelha!

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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