FLAUBERT (1821-1880)

Na época da cólera, para aumentá-la, abateu-se uma parede e foram comprados três acres de terra ao lado; mas toda essa porção nova é praticamente inabitada, e as tumbas, como outrora, continuavam a se aglomerar para junto da porta. O guarda, que é ao mesmo tempo coveiro e cuidador da igreja (auferindo, assim, dos cadáveres da paróquia um duplo benefício), aproveitou o terreno vazio para ali semear batatas. De ano a ano, entretanto, o seu pequeno campo se estreita e, quando sobrevém uma epidemia, não sabe se deve alegrar-se pelas mortes ou afligir-se pelas sepulturas.

- O senhor se alimenta dos mortos, Lestiboudois! - disse-lhe enfim, um dia, o senhor vigário.

Essa palavra sombria fê-lo refletir; fez com que parasse por algum tempo; mas, ainda hoje, continua a cultivar os seus tubérculos, e até tem o desplante de sustentar que eles nascem sozinhos.

MADAME BOVARY



Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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