DICKENS (1812-1870)

Havia muitas mulheres, naquela época, a quem o tempo impunha medonhas deformações; nenhuma delas, porém, era tão temível quanto aquela implacável mulher que agora caminhava pelas ruas. Dotada de um caráter forte e intrépido, de perspicácia e disposição, de uma grande determinação, de um tipo de beleza que não só parecia revelar-lhe a firmeza e animosidade mas também despertar nos outros um instintivo reconhecimento dessas qualidades. O conturbado tempo a teria contaminado, sob quaisquer circunstâncias. Contudo, imbuída desde a infância de um crescente ressentimento e de um ódio inveterado contra a aristocracia, a ocasião transformara-a numa tigresa. Ela era absolutamente destituída de compaixão. Se algum dia abrigou essa virtude, perdeu-a em definitivo havia muito.

Nada significava, para ela, que um inocente morresse pelos pecados de seus antepassados. Ela não o enxergava, mas sim a eles. Nada significava, para ela, que sua esposa enviuvasse e que sua filha se tornasse órfã. A punição ainda lhe parecia insuficiente, porque eles eram seus inimigos naturais, suas presas, e, como tais, não tinham direito à vida. Apelar para ela resultava inútil, pois era incapaz de um gesto de misericórdia, nem para consigo mesma. Se houvesse tombado nas ruas, num dos tantos embates de que tomou parte, não teria sentido pena de si própria. E se a enviassem para o cadafalso no dia seguinte, não acalentaria outro sentimento que não o feroz desejo de trocar de lugar com a pessoa que a enviava.
Tal era o coração que batia sob o modesto vestido de madame Defarge. Negligentemente usado, transformava-se cada vez numa túnica sinistra; seus cabelos escuros pareciam fartos debaixo do grosseiro barrete vermelho. Escondida em seu seio, havia uma pistola carregada; oculta em sua cintura, uma adaga afiada. Assim armada, e caminhando com o andar confiante típico de um tal caráter, e com a flexível liberdade de uma mulher que habitualmente caminhara na infância, descalça, pela areia da praia, madame Defage avançava pelas ruas.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo XIV. Encerra-se o Tricô

Comentários