DICKENS (1812-1870)

Assim chegou ele, através de longas horas, ao dia em que cinqüenta e duas cabeças iriam rolar. E agora, calmo e esperançoso de que pudesse enfrentar seu fim com sereno heroísmo, novas dúvidas apossavam-se de sua mente, dúvidas difíceis de controlar.

Nunca vira o instrumento que poria fim à sua vida. De que altura seria o cadafalso, quantos degraus teria, onde deveria postar-se, que mãos iriam tocá-lo, estariam elas manchadas de sangue, para que lado deveria virar a cabeça, seria o primeiro ou o último a morrer? Estas e muitas outras perguntas da mesma ordem lhe acudiam à ideia, de modo algum dirigidas por sua vontade, impondo-se vezes sem conta. Não eram produzidas pelo medo, pois não sentia nenhum. Eram, antes, fruto de um estranho desejo de saber o que fazer quando se aproximasse o momento. Um desejo gigantescamente desproporcional aos poucos e rápidos instantes a que se referiam, uma curiosidade que parecia vir de um outro espírito encerrado dentro do seu, e não de si mesmo.
As horas passavam, ele vagava de um lado para o outro, e os relógios batiam os números que jamais ouviria de novo. Nove horas, foram-se para sempre; dez… onze horas, foram-se para sempre; meio-dia prestes a ir-se para sempre. Após uma árdua luta contra os excêntricos pensamentos que o haviam atordoado, ele vencera. Caminhava de um lado para o outro, repetindo suavemente os nomes adorados. O pior do embate havia passado. Podia andar de um lado para o outro, livre de fantasias perturbadoras, rezando por si e por aqueles a quem amava.
Meio-dia, foi-se para sempre.
UM CONTO DE DUAS CIDADES
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo XIII. Cinquenta e Duas Cabeças

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