DICKENS (1812-1870)

Na escura prisão de Conciergerie, os que deviam morrer aguardavam seu destino. Eram em número igual ao das semanas do ano. Dos vagalhões da cidade para o oceano eterno e infinito, cinqüenta e duas cabeças rolariam naquela tarde. Antes que esvaziassem suas celas, novos ocupantes eram designados; antes que seu sangue se misturasse ao sangue derramado na véspera, aquele que se misturaria ao deles já estava separado.

Cinqüenta e duas cabeças condenados. Desde o rendeiro de setenta anos, cujas riquezas não lhe podiam comprar a vida, até a costureira de vinte anos, cuja pobreza e obscuridade não a puderam salvar. As doenças físicas, engendradas nos vícios e negligências dos homens, agarram suas presas em todas as classes sociais. E a temível desordem moral, nascida de um indescritível sofrimento, de uma opressão intolerável e de uma desalmada indiferença, também ceifava sem fazer distinções de qualquer natureza.
Charles Darnay, sozinho em sua cela, deixara de apegar-se a qualquer ilusão desde que saíra do tribunal. Em cada linha da narrativa que ouvira, ouvira sua condenação. Compreendera que nenhuma influência pessoa poderia salvá-lo, que fora virtualmente sentenciado por milhões de votos e que simples unidades nenhum benefício poderiam trazer-lhe.
Contudo, não era fácil, tendo diante dos olhos a imagem de sua amada esposa, convencer seu espírito a resignar-se com o que deveria suportar. Laços poderosos o prendiam à vida e era muito, muito difícil rompê-los. Quando, por meio de esforços, conseguia aos poucos afrouxá-los, logo sentia-os apertarem-se ainda mais; e quando buscava energia em sua mente para apoiar-se, esta lhe faltava. Além disso, havia um sentimento de urgência em todos os seus pensamentos, uma turbulenta e acalorada batalha travada em seu coração contra o conformismo. Se, por um momento, ele se conformava com a sua sorte, parecia-lhe ouvir os protestos da esposa e da filha, que teriam de sobreviver a ele, recriminando-o pela atitude egoísta.
Esses conflitos, porém, assaltaram-no apenas no inicio. Não tardou em que a consideração de que não havia desonra no destino que o aguardava, que inúmeras pessoas seguiam o mesmo injusto caminho, trilhando-o com firmeza todos os dias, surgiu para estimulá-lo. Depois, seguiu-se a idéia de que muito da futura paz de espírito de que seus entes queridos desfrutariam dependia de ele demonstrar uma serena fortitude. Assim, gradualmente, alcançou um estado de bem-vinda tranqüilidade, que lhe permitiu elevar os pensamentos e deles extrair conforto.
Antes de se espalharem as trevas da noite de sua condenação, sua mente havia, assim, alçado seu derradeiro vôo. Tendo conseguido comprar papel, pena e tinta, além de uma vela, sentou-se para escrever até a hora em que as luzes da prisão teriam de extinguir-se.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo XIII. Cinquenta e Duas Cabeças

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