CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O DESEJO DE PINTAR

INFELIZ O HOMEM, talvez, mais feliz o artista dilacerado pelo desejo!

Abrasa-me a ambição de pintar aquela que me apareceu tão raramente e tão cedo me fugiu, como foge uma bela coisa saudosa atrás do viajante levado dentro da noite. Há quanto tempo, já, que ela se foi!

É bela, e mais do que bela: é surpreendente. Nela predomina e ressalta o negro: e tudo o que ela inspira é noturno e profundo. Seus olhos são duas cavernas onde cintila vagamente o mistério, e seu olhar ilumina como o relâmpago: é uma explosão nas trevas.

Compará-la-ia a um sol negro, se fosse possível conceber um astro negro esparzinho luz e felicidade. Ela, porém, nos leva antes a pensar na Lua, que decerto a assinalou com a sua terrível influência. Não a Lua branca dos idílios, que recorda uma fria desposada, mas a Lua sinistra e embriagadora, suspensa no fundo de uma noite procelosa, e atropelada pelo galopar das nuvens; não a Lua plácida e discreta que visita o sono dos homens puros, mas a Lua arrancada do céu, vencida e rebelada, que as bruxas tessalianas rudemente obrigam a dançar sobre a relva espavorida!

Habitam-lhe a breve fronte a vontade tenaz e o amor da presa. Todavia, nesse rosto inquietante, onde narinas frementes aspiram o desconhecido e o impossível, rebenta, com inexprimível encanto, o riso de uma grande boca, vermelha e branca, e deliciosa, que faz pensar no milagre de uma soberba flor desabrochada em terreno vulcânico.

Há mulheres que inspiram o desejo de vencê-las e gozá-las; esta, porém, desperta o desejo de morrer lentamente sob o seu olhar.

Comentários