CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

QUAL A VERDADEIRA?

CONHECI uma certa Benedita que enchia a atmosfera de ideal, e cujos olhos semeavam o desejo da grandeza, da beleza, da glória e de quanto faz crescer na imortalidade.

Mas essa maravilhosa jovem era bela demais para ter longa vida; e morreu alguns dias depois de eu conhecê-la. Fui eu mesmo quem a sepultei, numa dia em que a primavera agitava o seu turíbulo até nos cemitérios. Fui eu que a sepultei, bem fechada num esquife de madeira perfumosa e incorruptível como a dos cofres da Índia.

E, tendo os olhos presos ao lugar onde se achava enterrado o meu tesouro, súbito vi uma pequena criatura singularmente parecida com a morte, e que, sapateando com estranha violência histérica sobre a terra fresca, dizia: a rebentar de riso:

- Sou eu a verdadeira Benedita! Sou eu! uma famosa canalha! E, para castigo da tua loucura e da tua cegueira, tu me hás de amar tal como eu sou!

Furioso, repliquei:

- Não! não! não!

E, para melhor frisar a minha negativa, bati com o pé na terra com tamanha violência que a minha perna se afundou até o joelho na recente sepultura, e, como um lobo colhido pela armadilha, permaneço preso, para sempre talvez, ao túmulo do ideal.


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