BOCCACCIO (1313-1375)

— Minhas jovens mulheres: como vocês podem abertamente verificar, todo vício pode transformar-se em motivo de aflição e de angústia, seja para quem é viciado, seja também, muitas vezes, para os que lhe ficam próximos. Entre as coisas que concorrem para isso, afigurasse-me que o que o faz com as rédeas mais soltas, transportando-nos para os maiores perigos, seja a ira. A ira nada mais é do que um movimento súbito e inconsiderado, que resulta de impulso determinado pela amargura sentida. É ela que expulsa toda razão; que ofusca os olhos da mente; e que acende ebulientes furores na nossa alma. Embora isto aconteça mais frequentemente na alma dos homens, menos na de uns e mais na de outros, nem por isso se deixou de ver que também ocorre, com danos ainda maiores, na das mulheres; é nas mulheres que a ira mais se inflama, ali ardendo com labareda mais clara, e erguendo-as com menos possibilidades de comedimento. Nem há, nisto, do que a gente se admirar. Porque, se quisermos analisar bem, veremos que o fogo da ira, por sua própria natureza, se ateia mais facilmente nas coisas leves e macias, do que nas coisas duras e pesadas. Afinal, nós, as mulheres, somos mais delicadas do que os homens; (não levem os homens a mal este esclarecimento). Somos, também, mais volúveis. Em consequência, vendo-nos naturalmente inclinadas a isso; tomando em consideração que a nossa mansuetude e a nossa bondade constituem grande prazer e grande repouso para os homens com os quais temos de nos entreter; admitindo que a ira e o furor consubstanciam enorme aborrecimento e inegável perigo, e que, por isto, precisamos nos precaver contra a ira, com firmeza de alma.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato
Terceira Novela: Laurinha

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