BOCCACCIO (1313-1375)

— O vulgo faz uso deste provérbio: “Quem é réu, mas bondoso considerado, pode fazer o mal, e não ser acreditado”. Este provérbio me proporciona ampla substância para novelar, a propósito do que me foi solicitado. Serve-me, igualmente, para demonstrar até que ponto chega a hipocrisia dos religiosos. Com vestes largas e longas, com o semblante artificialmente pálido, eles fazem uso de voz humilde e mansa, para pedir o que é dos outros; mas a tornam altíssima e robusta, para censurar, nos outros, os seus próprios vícios. Da mesma forma agem, quando querem mostrar que eles tomam o caminho da salvação, quando tiram o que é dos outros, mas que os outros só se salvam quando dão, a eles, religiosos, o que possuem. Além disto, não se comportam como criaturas que devem conquistar o paraíso, isto é, como nós; comportam-se como se fossem donos e senhores do céu; e dão, do céu, a cada mortal que morre, uma parte que corresponde à quantidade de dinheiro deixada a eles pelo morto; ademais, essa parte fica em lugar ora melhor, ora pior, também na proporção daquela quantidade de dinheiro. Com isto, os religiosos procuram enganar, em primeiro lugar, a si mesmos, quando acreditam no que eles próprios dizem, e, em segundo lugar, àqueles que às suas palavras emprestam fé. Se me fosse lícito pôr em evidência tudo quanto se conveniente, sem dificuldade eu revelaria, a muitos espíritos simples, aquilo que os mencionados religiosos conservam oculto por baixo de suas larguíssimas capas.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato
Segunda Novela: Pampinéia

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