BOCCACCIO (1313-1375)

Ao que Guiscardo nada mais disse, senão isto:
— O Amor pode muito mais do que o senhor ou eu podemos.
Tancredi ordenou, então, que Guiscardo fosse encerrado silenciosamente numa das salas do palácio, sob rigorosa guarda. E assim se fez. No dia seguinte, Guismunda ainda nada sabia destas coisas que tinham acontecido. Tancredi, porém, tinha pensado na realização de várias novidades. E, depois da refeição, de acordo com os seus usos, dirigiu-se à sala da filha. Mandou chamar Guismunda à sua presença; fechou-se com ela na sala; e, chorando, começou a dizer-lhe:
— Guismunda: sempre tive a intenção de conhecer a sua virtude e a sua honestidade; por isto, nunca me passaria pelo espirito, ainda que mo dissessem ser verdade, e se eu não o visse com os meus próprios olhos, que você se entregaria a um homem que não fosse seu marido; aliás, nunca eu poderia imaginar que você pensasse, sequer, em semelhante coisa. Em consequência, durante o pouco tempo que a velhice ainda me reserva de vida, sempre me sentirei pesaroso, ao recordar-me desta circunstância. E quisesse Deus, ainda assim, que, uma vez que você se conduziu com essa desonestidade, pelo menos escolhesse um homem à altura de sua nobreza! Entretanto, no meio de tantos homens que frequentam a minha corte, você elegeu Guiscardo, moço de humílima condição, e que foi criado no nosso palácio, desde criança, até ao dia de hoje, quase que por esmola feita a Deus. Por tudo isto, você lançou profunda perturbação no meu espirito; a tal ponto, que não sei como acabarei procedendo consigo. Quanto a Guiscardo, que mandei prender esta noite, quando saía daquela perfuração, e que está preso por minha ordem, já resolvi o que fazer. Quanto a você, porém, sabe Deus que eu não sei como proceder. De um lado, é o amor que me puxa — o amor que sempre nutri para consigo, e que foi maior do que aquele que jamais pai algum dedicou a uma sua filha; de outro lado, impele-me o justíssimo ódio, nascido de sua grande loucura; o amor quer que eu a perdoe; e o ódio exige que eu, contra a minha índole, me faça cruel para com você. Antes, porém, que eu resolva seja lá o que for, desejo ouvir o que você tiver para dizer sobre isto.
Depois de dizer estas palavras, Tancredi baixou os olhos, chorando tão sentidamente como o poderia fazer uma criança maltratada. Guismunda, após ouvir o pai, teve certeza de que o seu amor secreto já havia sido descoberto, e de que, além disso, Guiscardo se achava preso; sentiu, por isto, dor inexprimível; e bem perto esteve de acusar essa dor através de gritos e de lágrimas, com a maioria das mulheres costuma fazer. Esta vileza, porém, foi superada pelo seu espírito altivo. Com força maravilhosa, ela fixou o rosto erguido, olhando para a frente; antes de suplicar fosse lá o que fosse, a seu favor, decidiu não continuar a viver; presumiu que o seu amado Guiscardo já se encontrava morto; e, em consequência, preferiu agir, não como mulher queixosa, e menos ainda como criatura repreendida por alguma falta, mas sim como ser desprezador do perigo e cheio de valor; com semblante franco e sem lágrimas, em nada e por nada perturbado, assim falou ao pai:
— Tancredi: não estou disposta a negar, e menos ainda a implorar; de nada me valeria negar, nem eu quero que o implorar me venha a valer. Ademais, não desejo, por via de ato algum, tornar benévolos para comigo a sua mansuetude e o seu amor. Prefiro confessar a verdade, primero para defender com boas razoes, a minha reputação, e, depois, para seguir, com os fatos, a conduta que a grandeza do meu espirito manda. É exato que amei e amo Guiscardo; por todo o tempo em que viver, que será breve, eu o amarei. Se, depois da morte, a gente ama, não cessarei de o amar. Mas a isto me induziu menos a minha fragilidade feminina, do que a pouca solicitude que o senhor manifestou, quanto a me casar outra vez, ou do que a virtude de Guiscardo. Sendo o senhor de carne, Tancredi, deveria ter noção clara de que havia gerado uma filha também de carne, e não de pedra, e menos ainda de ferro; embora o senhor seja agora velho, deveria recordar-se, como ainda deve, com quais e com quantas forças se manifestam as leis da juventude. Uma vez que o senhor, sendo homem, se exercitou, em partes, nas armas, nos melhores anos, nem por isso poderia desconhecer aquilo que podem os ócios e as delicadezas, tudo em relação aos velhos, como em relação aos moços. Sou, pois, de carne, como ser gerado pelo senhor; e vivi tão pouco, que ainda sou jovem. Por uma coisa e por outra, enchi-me de desejo concupiscente; a este desejo, proporcionou forças maravilhosas o fato de eu, por haver sido casada, já haver conhecido o prazer que resulta, quando a esse desejo se dá por satisfação. Não pude resistir a tais forças, em consequência, enamorei-me, dispondo-me a seguir o caminho para o qual essas forças me puxavam, como criatura moça e mulher, que sou. Certo, pus o máximo dos meus esforços no sentido de não permitir que, sobre o nome do senhor, nem sobre o meu, recaísse qualquer sombra de vergonha, através daquilo que o pecado natural me impelia a fazer. Para isto, tanto o Amor, piedoso, como a Sorte, benigna, descobriram e me mostraram um caminho oculto; por esse caminho, eu consegui dar satisfação aos meus desejos, sem que ninguém o percebesse. Não nego haver encontrado este caminho, seja lá quem for que o tenha mostrado ao senhor; nem me importo com a forma pela qual o senhor veio a ter conhecimento dele. Não foi por acaso, como fazem muitas mulheres, que fiquei com Guiscardo; ao contrário: escolhi-o, com espirito deliberado, antes e acima de qualquer outro homem; por via de manobra claramente premeditada, introduzi-o nos meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, como da minha, longamente gozei o prazer da satisfação do meu desejo. Afigura-se-me que você me esteja repreendendo, por eu haver amorosamente pecado; quer-me parecer, entretanto, que, acompanhando a opinião do vulgo, o senhor me repreenda com mais dureza por eu me haver entregue, como o senhor diz, a homem de baixa condição social; e isto, como se o senhor não se perturbaria, se eu houvesse escolhido, para o mesmo fim, um homem que fosse nobre. Nestas condições, o senhor não percebe que está repreendendo, não o meu pecado, mas apenas o capricho da Sorte. Ora: a Sorte muitas vezes eleva os que não são dignos, deixando nas condições mais humildes precisamente os que são digníssimos. Ponhamos, porém de lado, tudo isto; e passemos ao principio das coisas; se assim fizermos, verá o senhor que todos nós, como seres de carne, temos as inclinações da carne; e que todos nós fomos criados, pelo mesmo Criador, com almas dotadas de iguais forças, de iguais possibilidades e de iguais virtudes. Como nós todos nascemos e continuamos a nascer iguais, é a virtude que nos distingue uns dos outros; os que, no passado tiveram maior quantidade de virtude, e dela uso fizeram, foram chamados nobres, e a parte restante ficou sendo não-nobre. Embora o uso contrário haja, posteriormente, escondido esta lei, esta lei nem por isto desapareceu de todo, por não ter sido desgastada pela Natureza, nem prejudicada pelos bons costumes; portanto, todo aquele que virtuosamente se comporta, mostra publicamente que é nobre; se, pois, alguém lhe dá outra classificação, quem comete o erro não é o assim classificado, e sim quem assim o classifica. Examine o senhor todos os seus nobres; analise-lhes a virtude, os costumes, as maneiras, depois, examine os mesmos aspectos de Guiscardo; se o senhor quiser proceder a julgamento, sem animosidade, terá de concluir que ele é nobilíssimo, e que todos estes seus nobres não passam de vilões. Quanto à virtude e ao valor de Guiscardo, não prestei ouvidos a qualquer outra pessoa; prestei-os às palavras proferidas pelo senhor mesmo, e aos meus olhos. Quem mais o louvou, do que o senhor mesmo, quando lhe louvava todas aquelas virtudes louváveis pelas quais um homem de valor deve ser louvado? Por certo, o senhor não o louvou sem razão; porque, se os meus olhos não me enganaram, nenhuma virtude o senhor lhe louvou que eu não visse ser muito mais admiravelmente praticada por ele, do que louvada pelas palavras que o senhor conseguisse proferir. E ainda que, neste particular, eu tivesse laborado em algum equivoco, seria da parte do senhor, não da dele, que o equivoco procederia. Dirá, então, o senhor, que eu me entreguei a homem de baixa condição? Se assim disser, não dirá a verdade! Se, entretanto, o senhor quisesse significar que eu me entreguei a homem pobre, para vergonha do senhor se poderia concordar com isso, pois é dessa forma que o senhor vem recompensando um servidor que é homem de grandes méritos. Todavia, a pobreza não desdoura a ninguém, nem tolhe nobreza a quem quer seja; o que desdoura e tolhe é a riqueza. Muitos reis e muitos grandes príncipes foram pobres outrora; e muitos dos homens que cavam a terra, ou montam guarda às ovelhas, se fizeram e ainda se fazem riquíssimos. A última dúvida que o senhor alimentava era quanto ao que deveria fazer comigo; dissipe-a do seu espirito, se é que o senhor está disposto, nesta sua velhice extrema, a fazer o que não ousou fazer quando jovem, isto é, tornar-se cruel. Aplique contra mim a sua crueldade; nem mesmo diante dela me sentirei disposta a apresentar qualquer súplica ao senhor fez, ou fará, de Guiscardo, terá de fazer de mim; se não o fizer, as minhas próprias mãos o farão. Pois bem, vamos! Trate de ir derramar essas lágrimas em companhia de mulheres; faça-se cruel; com um mesmo golpe, golpeie a ele e a mim; e, se lhe parece que foi isso o que, merecemos, mate-nos.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato
Primeira Novela: Fiammetta

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