VELHOS CONHECIDOS

JOÃO UBALDO RIBEIRO


Não tive ainda oportunidade de contar a vocês, mas aqui em Lisboa vejo sempre José Carlos Oliveira - Carlinhos Oliveira, meu aplaudido colega de letras. Quase sempre ele está descendo a Avenida dos Estados Unidos e eu vou subindo. Não nos cumprimentamos porque ele parece não me reconhecer e eu compreendo, são coisas de escritores. Vai ver que ele está ali mastigando um livro novo na cabeça e não quer gastar palavras, ainda mais com outro escritor. De forma que, quando o vejo surgir de lá, com seu elegante boné cinza e seu casaco parisiense de fino corte, limito-me a comentar comigo mesmo: “Lá vem o Carlinhos e, pela cara, está escrevendo que está danado.” Cruzamos nossos caminhos, nossos olhos se batem, ele chega a parecer que vai falar, mas terminamos por, sensatamente, manter a situação. Ele sabe quem sou eu e eu sei quem é ele, mas no momento estamos vivendo um misterioso evento literário, com o qual não se pode interferir irresponsavelmente.


Não me refiro aos dias em que Carlinhos, segundo me contam, pois ele nem me telefonou, esteve abertamente em Lisboa. Nesses dias em que, segundo ainda me contam, ele perambulou pelas ruas da cidade procurando inutilmente comer um pastel numa pastelaria, até que nem o vi aqui na Estados Unidos. Claro, pois se ele estava procurando o pastel. Aliás, bemfeito não achar: se me tivesse procurado, eu não só teria achado o pastel, como teria indicado umas chamuças inesquecíveis. Não, não me refiro a essa estada dos pastéis. Refiro-me a uma presença quase cotidiana, um rápido encontro quase diário. Tenho absoluta certeza e não adianta negar. Todo mundo sabe que essas coisas acontecem.

Por exemplo, uma vez que eu estava em Cuba e, saindo de um elevador em companhia do também aplaudidíssimo Gianfrascesco Guarnieri (e ele também está aí para não me deixar mentir; não me deixe mentir Guarnieri), vi Karl Marx na ponta do cabaré do Hotel Riveira. Não me assustei muito, creio que achei natural Marx estar ali, espairecendo em Cuba, disposto a tomar uns mojitos e apreciar um ou dois pares de pernas socialistas. Como nos retratos, não parecia cuidar muito do cabelo e da barba, meio desgrenhados. Mas usava um elegante colete sob o paletó cinza-claro e aparentava estar muito bem disposto.

— Nós já bebemos hoje? — perguntei discretamente a Guarnieri.

— Se é por causa do Marx ali, eu também já vi - disse Guarnieri, que sempre se recusa a dar uma resposta direta à pergunta “você já bebeu hoje”.

Ficamos olhando para ele de longe. Guarnieri ainda chegou a sugerir sem muito entusiasmo que fôssemos lá fazer uma entrevista com ele. Mas depois achamos que, se fôssemos nós que estivéssemos ali, de colete e olho aceso, na porta do cabaré, não iríamos gostar da idéia de dar entrevista a um par de chatos aparecido de repente. Além disso, concluímos, enquanto Marx ajeitava o paletó e adentrava o cabaré para não mais ser visto, ninguém ia acreditar mesmo. Coisa, comprovada imediatamente, no próprio círculo familiar. Pois, assim que Marx sumiu, Vânia, mulher de Guarnieri, chegou ao saguão do hotel.

— Nós vimos Marx ali, agorinha mesmo! — anunciou Guarnieri. — De colete, ali, na porta do cabaré! Foi ou não foi?

— Foi — garanti. — Ele é um pouco mais alto do que eu pensava.

— Vocês já beberam hoje? — disse ela, olhando para a gente de cima a baixo.

É verdade que nós já tínhamos bebido, sim, mas somente um bocadinho (a gente sempre bebia somente um bocadinho) e, além disso, trata-se de um pormenor irrelevante, porque não só raramente estou bebendo quando vejo Carlinhos de Oliveira aqui em Lisboa (e ele não bebe mais, de maneira que pode dar um depoimento insuspeito, a não ser que continue a desejar permanecer incógnito e comportar-se estranhamente), como também não costumo estar bebendo quando vejo Joel Silveira na esquina da Avenida de Roma, conversando com alguns outros cavalheiros corpulentos.

Joel só apareceu de uns meses para cá. Não é como Carlinhos, que está aqui praticamente desde que eu cheguei. Em compensação, é de uma regularidade muito grande. Toda quinta-feira, por volta das cinco horas da tarde, ele pode ser visto à porta da tabacaria onde joga na totobola, esperando os amigos não só para debater suas apostas esportivas, como para ficar bebericando e brandindo jornais inflamadamente. Nós nos cumprimentamos, embora não com a efusão que seria de esperar-se, dadas as nossas ligações sergipenses. Aliás, talvez sejam essas mesmas raízes sergipenses as responsáveis por nunca havermos adiantado papo além de um cerimonioso “como passou?”. É que o nordestino é desconfiado por natureza: eu não sei o que Joel está fazendo aqui, ainda mais jogando tanto no totobola, ele não sabe o que eu estou fazendo aqui. É tudo altamente suspeito, de maneira que ele vai fingindo que não nota nada e eu vou fingindo que não noto nada. Quando voltar ao Rio, esclareço esse assunto pessoalmente com ele (e exigirei uma porcentagem, a depender; não sei se a mulher dele sabe que toda quinta-feira ele fica por aqui enchendo a cara).

Assim, não estranho que, nas viagens de metrô que faço às segundas-feiras para levar à Varig o malote contendo estas mal traçadas, frequentemente encontre, sentado num banco lateral e lendo gravemente um exemplar de A Capital, o poeta Ledo Ivo. Muito composto, o poeta raramente levanta os olhos de seu jornal. Quando o comboio pára à estação de Socorro, ele dobra o jornal com meticulosidade, retira os óculos do nariz para colocá-los no bolsinho do paletó, levanta-se e desce no Rossio pela saída da Praça da Figueira, de cabeça empinada e sem olhar para trás, passo rápido e jornal ao sovaco. A esse não ouso falar - não temos intimidade e ele não parece desejar perguntar que interfiram com sua apressada missão das segundas-feiras à Praça da Figueira ou adjacências.

Resta deter-me algum tempo na plataforma do metrô, acompanhando a subida ágil do poeta pelas escadas acima. Divago um pouco apesar da multidão em torno, mas sou trazido de volta à realidade pelo barulho das portas do comboio se fechando. Na cabine à frente, diante de seus comandos, um motorneiro de olhos um pouco esbugalhados, bigode mefistofélico e cabelo caído na testa, põe a cabeça para fora com impaciência, para ver se está tudo em ordem lá atrás. Quando vira a cabeça de volta, seu olhar passa na minha direção e imediatamente reconheço, naquele expressão vilanesca e na voz irritada em que saíam suas imprecações, José Lewgoy! Estremeci, mas ainda consegui falar.

— Zé! — gritei, levantando a mão.

Mas se ele limitou a me olhar rapidamente e com frieza, bateu a porta, meteu a mão nos controles e desapareceu pilotando o trem pelo túnel adentro. Há uma conspiração em andamento, estou seguro.

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