FLAUBERT (1821-1880)

Um dia em que, prevendo a mudança, ela arrumava a gaveta, espetou o dedo em alguma coisa. Era um arame de seu buquê de casamento. Os botões de flores de laranjeira estavam amarelos de poeira e as fitas de cetim, com borda de prata, estavam desfiando nas beiradas. Ela o atirou ao fogo. Inflamou-se mais depressa do que palha seca. Depois ficou como uma moita vermelha sobre as cinzas, que se corroía lentamente. Ela o olhou queimar-se. As pequenas bagas de papelão estalavam, os fios de latão se torciam, o galão se derretia; e as corolas de papel, endurecidas, balançavam-se ao longo da chapa como borboletas negras, enfim voando pela chaminé.

MADAME BOVARY



Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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