DICKENS (1812-1870)

A infeliz esposa do inocente condenado à morte curvou-se, ao ouvir a sentença, como se atingida por um golpe mortal. Não proferiu, contudo, uma só palavra. Tão forte era a voz interior que a aconselhava a amparar o marido naquele momento terrível, em vez de aumentar-lhe o sofrimento, que ela reagiu contra o choque.
Como os juízes deviam tomar parte numa manifestação pública, as sessões seguintes do tribunal foram adiadas. O alarido e a movimentação provocados pelo apressado esvaziamento da corte, através das várias portas, ainda não havia cessado quando Lucie deteve-se em frente ao banco dos réus e estendeu os braços para Charles, com o semblante nada expressando além de amor e consolo.

— Se eu pudesse tocá-lo! Se o pudesse abraçar ao menos uma vez! Oh, bons cidadãos, suplico-lhes que tenham compaixão!
Apenas um dos carcereiros permanecera ali, além de dois dos quatro homens que prenderam Charles na noite anterior e de Barsad. Todos os demais haviam saído para assistir ao espetáculo nas ruas. Barsard propôs aos companheiros:
— Deixam-na abraçar o marido. É apenas um momento.
Os outros aquiesceram silenciosamente e ajudaram-na a saltar sobre os bancos do pretório até o tablado onde ele, inclinando-se sobre a grade, pode apertá-la nos braços.
— Adeus, amada da minha alma. Aceite a minha última benção. Nós nos tornaremos a encontrar ali onde repousam os cansados!
Essas foram as palavras de Charles Darnay, ao aconchegá-la junto ao peito.
— Eu posso suportar, Charles querido. Tenho o amparo de Deus, por isso não sofra por mim. Conceda sua derradeira benção à nossa filha.
— Abençoe-a e dê-lhe um beijo em meu nome. Diga adeus a ela por mim.
— Meu marido. Não! Um momento mais! — Ele se estava afastando dela. — Não ficaremos separados por muito tempo. Sinto que meu coração se despedaçará, mas cumprirei meu dever enquanto tiver forças. E quando eu deixar nossa filha, Deus lhe dará amigos como os deu a mim.
Seu pai a havia seguido e se teria ajoelhado perante ambos se Darnay não o impedisse, segurando-o e bradando:
— Não, não. Por que se ajoelharia diante de nós? O senhor nada fez de mal, não há por que sentir-se culpado. Sabemos agora da luta que teve de enfrentar e o quanto sofreu quando suspeitou de meu nome de família. Compreendemos a antipatia instintiva que sentiu por mim, a principio, e que conseguiu vencer, por amor a Lucie. Nós lhe agradecemos de coração, com nosso amor e respeito. Que o céu o proteja!
Por única resposta, o doutor levou as mãos aos cabelos brancos, soltando um grito de angústia.
— Não podia ser de outro modo — prosseguiu o prisioneiro. — Todas as circunstâncias contribuíram para esse resultado. Foi o meu inútil esforço para cumprir o último desejo de minha pobre mãe que guiou minha presença fatal até o senhor. O bem jamais resultaria do mal, nem se poderia esperar que tão infeliz começo conduzisse a um final feliz. Conforme-se e perdoe-me. Deus o abençoe!
A esposa desprendeu-se dele ao ver que o vinham buscar. Fitou-o de mãos postas em atitude de prece e, no momento em que o marido se afastou, iluminou o semblante com um sorriso confortador. Vendo-o desaparecer na porta reservada aos prisioneiros, virou-se, apoiou ternamente a cabeça no peito do pai, tentou falar-lhe e caiu, desfalecida, a seus pés.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo X. A Substância da Sombra

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