DICKENS (1812-1870)

— Não há mais nada a fazer — murmurou consigo mesmo, erguendo os olhos para a lua — até amanhã. Não posso dormir.
Não foi inquieta a maneira como ele pronunciou essas palavras sob as nuvens que deslizavam, rápidas, pelo céu, nem expressava indiferença ou desafio. Era a maneira apaziguada de um homem cansado, que havia andado sem rumo, que lutara e se perdera, mas que, por fim, reencontrou seu caminho e vislumbrou-lhe o término.
No passado distante, quando era famoso entre seus primeiros concorrentes como um jovem promissor, ele conduziu o pai até o sepulcro. Sua mãe já havia morrido anos antes. Aquelas solenes palavras, lidas antes da sepultura do pai, voltaram-lhe à memória enquanto avançava pelas ruas escuras, por entre as pesadas sombras, com a lua e as nuvens deslizantes sobre ele. “Eu sou a ressurreição e a vida”, disse o Senhor; “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá.”
Numa cidade dominada pelo patíbulo, sozinho na noite, sentindo uma genuína tristeza pelos sessenta e três que haviam sido executados naquele dia, e pelas vítimas do dia seguinte, que aguardavam a morte nos calabouços, e também as do outro dia, e as os outro ainda, a cadeia de associações que lhe trouxe aquelas palavras à memória, como a enferrujada âncora de um velho navio emergindo das profundezas, produziu-se naturalmente. Ele não as procurava, mas repetiu-as e seguiu em frente.
Com um solene interesse pelas janelas iluminadas onda as pessoas se preparavam para repousar, esquecidas por algumas e poucas e tranqüilas horas dos horrores que as circundavam; pelas torres das igrejas, onde nenhuma prece era rezada, pois a revolta popular atingira esse ponto de autodestruição, como conseqüência dos anos e anos de impostura eclesiástica, de libertinagem e rapina; interessado pelos distantes cemitérios, reservados, conforme escreviam sobre os portões, ao Sono Eterno; pelas abundantes prisões e pelas ruas por onde os grupos de sessenta eram guiados para a morte, a qual se tornara algo tão cotidiano e concreto que não sobrara espaço para as histórias lúgubres de fantasmas e aparições que normalmente surgem entre as pessoas, remanescendo apenas o lúgubre terror da guilhotina; com um solene interesse, enfim, pela vida e pela morte da cidade que se aplacava para a breve pausa noturna de sua fúria, Sydney Carton cruzou o Sena, regressando às ruas iluminadas.
Poucas carruagens circulavam, pois conduzir coches era uma boa maneira de levantar suspeitas, e os fidalgos escondiam a cabeça debaixo de barretes vermelhos, calçavam sapatos pesados e andavam a pé. Contudo, os teatros estavam todos cheios, e as pessoas saíam deles tagarelando alegremente quando Carton passou. Na porta de um dos teatros, viu uma menina com a mãe, procurando um lugar menos enlameado por onde pudessem atravessar a rua. Ele tomou a criança nos braços, levou-a para o lado oposto e, antes que o bracinho da menina se desprendesse do seu pescoço, pediu-lhe um beijo.
“Eu sou a ressurreição e a vida”, disse o Senhor; “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá.”
Agora que as ruas estavam quietas e a noite se exauria, as palavras ressoavam no eco dos seus passos e no ar. Completamente calmo e decidido, repetia-as para si mesmo, por vezes, enquanto caminhava. Mas ouvia-as sempre.
A noite se exauriu e, enquanto, apoiado à ponte, ouvia o rumorejar do Sena açoitando as muralhas da Ilha de Paris, onde a pitoresca confusão de casas e catedral refulgia sob o luar, o dia surgiu friamente, parecendo um rosto morto projetado no céu. Então, a noite, com a lua e as estrelas, empalideceu e morreu e, por um instante, foi como se a Criação ficasse sob o domínio absoluto da Morte.
Contudo, o glorioso sol, erguendo-se, dava a impressão de repetir aquelas palavras, aquele bordão da noite, ininterrupto e cálido para o coração dele, com seus raios longos e resplandecentes. E enquanto os contemplava, com os olhos reverentemente protegidos, uma ponte luminosa estendeu-se pelo ar entre ele e o sol, por sobre o rio reverberante.
A forte correnteza, tão ligeira, tão profunda e certa, era como uma amiga congenial, na quietude da manhã. Ele caminhou pela margem do rio, longe das casas, e, sob a luz e o calor do sol, adormeceu. Quando despertou e se pôs novamente a andar, deixou-se ficar por ali um pouco mais, observando um remoinho que volteava e volteava sem propósito até que a corrente o absorveu e o carregou para o mar. “Como eu!”
Um barco mercante, cuja vela tinha a cor esmaecida de uma folha morte, deslizou perante seus olhos, flutuou para longe e passou. Quando seu silencioso rastro na água desapareceu, a prece que irrompera de seu coração por uma piedosa benevolência para com os seus erros e falta de visão brotou-lhe dos lábios:
— Eu sou a ressurreição e a vida.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo IX. Feito o Jogo

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