DICKENS (1812-1870)

Seu obeso carcereiro, que usava óculos para ler, olhou por cima das lentes para certificar-se de que ele se encaminhara para o lugar apropriado, e continuou a leitura da luta, fazendo a mesma pausa curta a cada nome. Lá estavam vinte e três nomes, mas apenas vinte responderam à chamada, pois um deles morrera no cárcere e fora esquecido, e outros dois já haviam sido guilhotinados e esquecidos. A lista era lida no salão abobadado onde Darnay foi introduzido na noite de sua chegada e onde encontrara os prisioneiros reunidos. Todos eles tinham perecido no massacre. Todos os seres humanos por quem se interessara e de quem se separara desde então haviam morrido no cadafalso.

Ouviram-se apressados e carinhosas palavras de adeus, mas a despedida foi rápido. Era um incidente diário, e a sociedade de La Force ocupava-se com os preparativos para alguns jogos de prendas e para um pequeno concerto, os quais teriam lugar naquela noite. Todos se acotevelaram junto às grades e derramaram lágrimas; contudo, vinte lugares nos entretenimentos programados ficaram vagos e precisavam ser preenchidos e o tempo era, no mínimo, curto, tendo em vista a proximidade do toque de recolher, quando as celas comunais e os corredores era ocupados pelos cães imensos que eram responsáveis pela vigilância noturna. Os prisioneiros nada tinham de insensíveis ou de indiferentes. Seu comportamento era unicamente o resultado das circunstâncias. Da mesma forma, embora com uma diferença sutil, a espécie de fervor ou de intoxicação que, sabe-se, sem dúvida levou algumas pessoas a desafiar desnecessariamente a guilhotina e a morrer nela, não era simples jactância, mas uma selvagem degeneração da selvagemente abalada consciência pública. Nas epidemias da peste, alguns de nós sentimos uma secreta atração pela doença, uma efêmera e terrível inclinação a morrer em conseqüência dela. E todos nós possuímos prodígios ocultos em nossos corações que só necessitam das circunstâncias certas para serem evocados.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta
Capitulo VI. Triunfo

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