CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A MOEDA FALSA

QUANDO nos íamos afastando da tabacaria, o meu amigo fez cuidadosa separação de suas moedas: no bolso esquerdo do colete insinuou pequenas peças de ouro; no direito, pequenas peças de prata; no bolso esquerdo da calça, um punhado de volumosos soldos; e enfim, no direito, uma peça de prata que ele particularmente examinara.

- "Singular e minuciosa distribuição!" - disse eu comigo.

Encontramos um pobre que nos estendeu o boné, a tremer. - Não conheço nada mais inquietante que a eloquência muda desses olhos súplices que, para o homem sensível que neles sabe ler, encerram, ao mesmo tempo, tanta humildade e tantas censuras. Ele aí descobre algo que se aproxima dessa profundeza de sentimento complexo, própria dos olhos lacrimejantes dos cães batidos.

A dádiva do meu amigo foi muito mais considerável que a minha, e eu disse-lhe:

- Você tem razão: depois do prazer de surpreender-se, não há prazer maior que o de causar uma surpresa.

- Era a moeda falsa - respondeu sereno, como para se justificar de sua prodigalidade.

No entanto, em meu miserável cérebro, sempre ocupado em fazer de um argueiro um cavaleiro (com que exaustiva faculdade me brindou a natureza!), entrou súbito a idéia de que tal procedimento, da parte do meu amigo, só era desculpável pelo desejo de criar um acontecimento na vida daquele pobre-diabo, talvez até de conhecer as consequências diversas, funestas nas mãos de um mendigo. Não poderia poderia ela multiplicar-se em moedas verdadeiras? não poderia, também, arrastá-lo à prisão? Talvez um taberneiro ou um padeiro, por exemplo, mandasse prendê-lo como fabricante ou passador de moeda falsa. Também poderia acontecer que a moeda falsa viesse a tornar-se, para um pobre, humilde especulador, o germe de uma riqueza de alguns dias. E assim a minha fantasia se espraiava, emprestando asas ao espírito do meu amigo e tirando todas as deduções possíveis de todas as hipóteses possíveis.

Ele, porém, cortou de repente o meu devaneio, retomando as minhas próprias palavras:

- Sim, você tem razão: não há prazer mais fino do que surpreender um homem dando-lhe mais do que ele espera.

Fitei-o no branco do olho, e espantei-me de ver que nos seus olhos brilhava uma incontestável candura. Então percebi claro que ele quisera fazer, ao mesmo tempo, uma caridade e bom negócio; ganhar quarenta soldos e o coração de Deus; conquistar o Paraíso economicamente; enfim, pilhar de graça o diploma de homem caridoso. Quase lhe perdoaria o desejo do criminoso prazer de que pouco antes o supunha culpado; acharia curioso, singular, que ele se divertisse em comprometer os pobres; mas não lhe perdoarei jamais a inépcia do seu cálculo. Se nunca nos podemos escutar de ser maus, há, contudo, algum mérito em sabermos que o somos; porém o mais irreparável dos vícios é fazer o mal por estupidez.

Comentários

Postar um comentário